Meu humor
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, CAMPINAS, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English



Arquivos

Outros links
 Blog do Marcelo Coelho
 Blog do Tas
 Cinema - Merten
 Cronópios
 Daniel Piza
 Desculpe a Poeira (Ricardo Lombardi)
 É Tudo Verdade
 Máquina de Escrever (BLOG Luciano Trigo)
 Olha Só (Ricardo Calil)
 Pensamentos de Uma Batata Transgênica
 Sequências Parisienses
 Todoprosa
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 My Space




Clareando Idéias
 


SOBRE HERÓIS E TUMBAS

No You Tube, the Smiths. Pra quem não sabe onde Renato Russo buscava inspiração. No link com imagem, uma apresentação com maior qualidade. Nesse aqui, Steven Patrick Morrisey em estado puro. Sim, vocês já viram a dancinha e a camisa de bardo medieval. Mas, verdade se diga, o inglês fez primeiro, Renato veio depois.

 

Depois de curtirem a música, têm post novo abaixo, S’il vous plaît.

 



Escrito por Fernando Baia às 22h49
[] [envie esta mensagem
] []





EMBAIXO DO MESMO SOL

“Pus-me, então, a louvar as instituições utopianas e a narrativa feita”. Depois tomei pela mão o narrador, a fim de levá-lo a cear, e prometi que, de outra feita, teríamos ocasião de meditar mais profundamente sobre essas matérias e, de juntos conversar mais demoradamente.

 

Praza a Deus que isto aconteça algum dia!

 

Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem, aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas  que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.

 

Aspiro, mais do que espero”.

 

A UTOPIA – THOMAS MORUS.

 

Em tempos de Henry VIII Revival não é estranho que se fale tão pouco de seu chanceler, Thomas Morus. Morus foi de fato um estranho no ninho da corte inglesa; aliás, pessoas como ele são estranhas ao planeta. Em tempo de eleições municipais, num vale tudo que chega às nossas calçadas, as palavras de um homem que se negou a trair seus valores têm alguma serventia. Ou não.

 

 

 

*************************************************

“Ivan Karamazov diz que, acima de tudo o mais, a morte de uma criança lhe dá ganas de devolver ao universo o seu bilhete de entrada. Mas ele não o faz. Ele continua a lutar e a amar; ele continua a continuar”.

 

Da Introdução de “Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar” – MARSHALL BERMAN.

 

Quando a literatura despertava discussão, fui apresentado na nunca suficientemente citada “biblioteca” ao Senhor Soljenitsyn, que deixou o planeta nos últimos dias e, bom que se diga,  sobre quem desde então mudei de opinião várias vezes.

 

Acho que Soljenitsyn – de quem li trechos do Gulag e devorei Agosto 1914 – travou o combate sugerido por Ivan Karamazov. Do pouco que saiu publicado por ocasião de sua morte, só Amir Labaki escreveu seu nome corretamente. Ou isso, ou Amir e eu não fomos informados da última reforma ortográfica russa. Vá lá... outros tempos, outros tempos...

 

Reproduzo abaixo a coluna É Tudo Verdade, do Amir, no Valor. O último parágrafo diz um pouco sobre literatura, sobre o tempo, sobre nós mesmos. Ou não.

 

 

O homem que venceu o Gulag

 

É difícil reconstituir para as novas gerações a dimensão mítica alcançada nos anos 1960 e 70 pelo escritor e dissidente russo Aleksandr Isayevich Soljenitsyn, morto no começo desta semana às vésperas de completar seu nonagésimo aniversário. No auge da Guerra Fria, entre a primavera de Kruschev (1954-64) e a glasnost de Gorbatchev (1985-1991), Soljenitsyn era um ídolo político talvez só comparável nos dias de hoje a Nelson Mandela e Václav Havel. O reduzido impacto da notícia de sua morte é um editorial sobre a dinâmica dos mitos e o poder corrosivo da História.

Desde que os provisórios ventos liberalizantes do khruschevismo permitiram em 1962 a publicação da novela “Um dia na vida de Ivan Denissovitch”, sobre o cotidiano nas prisões políticas da URSS sob Stálin, Soljenitsyn se estabeleceu como o grande narrador literário da tirania soviética. Brejnev logo trouxe o mofo burocrático de volta e reiniciou a ciranda repressiva contra o escritor.

Em 1970, Soljenitsyn foi proibido de ir a Estocolmo receber o Prêmio Nobel de Literatura. O veto caiu-lhe como uma segunda medalha. Para muito além do campo literário, Soljenitsyn se firmou como um gigante moral, o símbolo maior do “homo anti-sovieticus”, ombreado talvez apenas pelo físico dissidente Andrei Sakharov (1921-1989).

Sua extensíssima e variada obra é sobretudo a de um documentarista das letras. Soljenitsyn, nos ensina Boris Schnaiderman, deve muito à escola russa dos anos 1920 batizada de “litieratura facta”, a literatura do fato real. Escreveu contos e novelas, poemas e ensaios, mas seu nome parece inextricavelmente ligado a “Denissovich” e aos dois monumentos não-ficcionais da maturidade.

Com duas mil páginas divididas em três volumes, “Arquipélago Gulag” baseou-se na experiência do próprio escritor, preso por mais de uma década devido a uma piada sobre Stálin numa carta, no testemunho de 227 presos políticos soviéticos e em extensa pesquisa. É um “Memórias do Cárcere” (Graciliano Ramos) várias vezes multiplicado, em tragédia humana e épica literária.

Sua publicação em 1974 no Ocidente, para onde microfilmes dos originais foram enviados clandestinamente, representou a gota d’água para a gerontocracia soviética. Soljenitsyn teve cassada a cidadania soviética e foi expulso do país. Zanzou dois anos pela Europa até se estabelecer por quase duas décadas na pacata Vermont, nos EUA. Para ele, “do ponto de vista profissional”, começava “o período mais feliz de minha vida”.

O exílio americano foi dedicado quase exclusivamente à redação das quatro partes e mais de cinco mil páginas de seu romance histórico “A Roda Vermelha”. Misturando técnicas de ficção, história, ensaio, biografia e excertos jornalísticos à moda John dos Passos, Soljenitsyn apresenta sua interpretação da Revolução Russa de Fevereiro de 1917, que considerava muito mais marcante e crucial do que o golpe bolchevique de outubro. Monótona e palavrosa para muitos, para outros uma obra à altura de “Guerra e paz” de Tolstoi, “A Roda Vermelha” permanece como a esfinge maior de sua vasta produção literária.

A glasnost restaurou a cidadania russa de Soljenitsyn em 1990 e quatro anos mais tarde o escritor, como previra, voltava à Rússia, e não mais URSS. O documentarista se tornara pregador. Não bastava expulsar de casa o bode soviético. Este era cruel mas frágil e passageiro.

O grande desafio seria recuperar a Rússia mítica, forte como Nação (eslava) e em espírito (católico ortodoxo), temente a Deus e temida pelos vizinhos, em oposição às dissipações da sociedade de consumo do Ocidente. Não foi difícil, assim, para Vladimir Putin abraçá-lo com o oportunismo habitual, assumindo Soljenitsyn como uma espécie de líder espiritual de seu petroczarismo.

Um jornalista renomado e insuspeito como David Remnick, editor-chefe de “The New Yorker”, repudiou em perfis recentes do escritor essa apropriação política e sua imagem tardia de autocrático e reacionário. “Em termos do impacto que teve sobre a história, Soljenitsyn é o escritor dominante do século vinte”, defende Remnick.

Como Dostoievski, Soljenitsyn teve sua rota de vida alterada pela prisão, engajando-se num mergulho interior rumo à redenção íntima pela espiritualidade. Como Tolstoi, o escritor quando ancião se fez um apóstolo do sagrado como essencial para o reencontro da Rússia consigo mesma. É difícil ver um “leninista às avessas”, como o definia Paulo Francis, no homem que escreveu: “Temos de condenar publicamente a mera idéia de que alguns têm o direito de reprimir outros”.

Nenhuma obra de Aleksander Soljetnitsyn está hoje disponível em catálogo nas livrarias brasileiras.

 

08 de Agosto de 2008.



Escrito por Fernando Baia às 22h31
[] [envie esta mensagem
] []





RÁPIDAS

As últimas experiências cinematográficas me colocam como favorito em duas competições fortíssimas no Ano da Graça de 2008: Jogo de Amor em Las Vegas (Marido do Ano – Regional Freguesia); A Múmia – A Tumba do Imperador Dragão (Mico do Ano – Regional Freguesia; o primeiro lugar na competição mundial é do Jet Li, que aceitou “interpretar” a múmia da vez). Ou minha avaliação quanto ao filme é correta, ou estou envelhecendo e perdendo qualquer senso de humor.

 

************************************************

Falando de Listas mais sérias, “Dona” Naomi, do nunca suficientemente citado Pensamentos de Uma Batata Transgênica, indica esse Blog quase aniversariante para o Prêmio Dardos. Certo, a indicação diz mais da generosidade da Naomi do que dos méritos desse “BLOG BEBÊ”. O aprendiz de blogueiro que vos tecla sentiu a “responsa”. Amanhã post sério sobre o Dardos e a promessa – verdadeira dessa vez - de normalizar os posts ainda em agosto, antes do aniversário, pela obra e graça da divina misericórdia, faz favor.

 

*************************************************

 

Olimpíadas que vêm e que vão, muitas aberturas e encerramentos vistos e, nessa memória envelhescente, o urso Misha ainda reina absoluto, apesar do Brhezinev – nós jogamos com os dinossauros.

 

Verdade que os Jogos de Moscou ainda têm um agravante na memória sentimental: Nadia Comanecci dizia adeus às competições e deixava inconsoláveis corações ao redor do mundo. A adolescente magérrima de Montreal (1976) tinha virado mulher quatro anos depois. Foi derrotada por uma diferença ridícula – só vista pelos juízes soviéticos – por Elena Davydova. Alguém ainda sabe quem foi Elena Davydova? O mundo ainda saberá, quarenta minutos após o Armageddon, quem foi Nádia, uma romena que venceu a gravidade.  



Escrito por Fernando Baia às 01h04
[] [envie esta mensagem
] []





EXPOSIÇÃO - "MEMÓRIAS DE ADRIANO"

Na cidade mais cool do planeta, no museu mais tradicional dessa cidade, uma exposição lembra o legado do Imperador Adriano, um dos Antoninos. O título do post foi tirado, claro, do livro de Marguerite Yourcenar. Se você estiver com sorte e tiver algum compromisso na eterna Londinium dos romanos até o final de outubro, não deixe de conferir. Ah, e me envie um postal if you please.

 

     

PANTEÃO - RESTAURADO POR ADRIANO (BBC)

 

 

A vida e o legado do imperador romano Adriano (117-138 d.C.) é o tema de uma exposição que abre nesta semana no Museu Britânico, em Londres.

A mostra Hadrian: Empire and Conflict (Adriano: Império e Conflito, em tradução literal), traz 180 objetos relacionados com a vida do imperador, vindos de 28 países.

Adriano é conhecido principalmente por seu interesse pela cultura grega e por arquitetura. Os britânicos também o reconhecem pela muralha que construiu entre o que hoje é a Inglaterra e a Escócia - à época, uma área que fazia parte do Império Romano.

No entanto, a personalidade polêmica do imperador também contribuiu para o interesse histórico sobre sua figura.

"Adriano foi um homem de grandes contradições em sua personalidade e império: um militar e homossexual, ele combinava opressão cruel de discórdia com tolerância cultural", disse o porta-voz do Museu.

Entre os objetos que fazem parte da exposição estão fotos da famosa Villa Adriana, residência do imperador em Tivoli, na Itália, e do Panteão de Roma, construído no seu império. Além disso, esculturas do imperador encontradas em escavações históricas também estão em cartaz.

"Adriano foi um imperador de sucesso que deixou uma herança grande e duradoura, mas que não é apreciada ou reconhecida com freqüência", afirmou o curador da exposição, Throsten Opper.

"A exposição irá permitir uma reavaliação de seu caráter, sua vida, amor e legado."

(BBC Brasil)



Escrito por Fernando Baia às 00h40
[] [envie esta mensagem
] []





LITERATURA - QUEIMAR A LÍNGUA

Quem acompanha o Clareando sabe minha opinião sobre o filme O Passado, do Hector Babenco, baseado em livro do argentino Alan Pauls. Não tive coragem de ler o livro depois de ver o filme e, agora, percebo que fiz mal. Aliás, pra queimar definitivamente a língua, as coisas mais interessantes em Nuestra America no que diz respeito à literatura e cinema têm vindo da Argentina. Bom quanto à música, acho que ainda estamos na frente, seguidos por Jorge Drexler, no Uruguai.

 

Li na Bravo On Line uma entrevista de Alan Pauls e uma breve resenha do seu novo livro (curtíssimo, 88 páginas). O argumento me pareceu instigante. Leiam! Comentem!

 

Pelo Fim das Lágrimas Argentinas

Com uma narrativa interessada nas sensações, lembranças e comentários de uma consciência individual, novo livro de Alan Pauls investiga os anos 70 na Argentina pelos olhos de um menino

Por Mariana Shirai

Em História do Pranto, mais recente livro do argentino Alan Pauls, com edição brasileira lançada pela Cosac Naify, o escritor propõe-se a recriar a história política de seu país na década de 70 como de fato ela se deu.

Para isso, o autor de O Passado (adaptado para o cinema por Hector Babenco) usa "frases-hábitat", ou "frases-droga", como ele chama os enormes períodos que chegam a cobrir uma página inteira, numa narrativa que não está apenas interessada nos fatos, mas também nas sensações, nas lembranças e nos comentários ligados aos acontecimentos de uma consciência individual.

Esses jorros documentais são orientados pela infância e pelo início da adolescência de um protagonista que não participa diretamente dos fatos históricos do período. Seus maiores trunfos residem em sua aguda sensibilidade e em seu precoce discernimento da realidade que o cerca, perfeitos para o exercício da prosa proposta pelo autor e para a estruturação, desde cedo na vida do menino, de uma postura política clara mesmo que desiludida.

História do Pranto aproxima-se do real ao ater-se aos pequenos grandes dramas de uma criança filha de pais burgueses - entre os pioneiros argentinos da modalidade "separados" -, e dos adultos ao seu redor, dada a inusitada capacidade do menino de incitar a confissão voluntária e espontânea dos desenganos alheios.

Assim, o livro, que tem como subtítulo Um Testemunho, registra as vozes - as lágrimas - e as sensações provenientes de uma época que, apesar da proximidade histórica, já é mítica no que diz respeito aos alicerces da atual Argentina. Em entrevista à Revista BRAVO! de julho (leia abaixo), Pauls criticou a "cultura da vítima, que está no poder, neste exato momento, no país".

Segundo ele, na Argentina, impôs-se uma ideologia que diz que, "se somos vítimas, somos intensos, e, se somos intensos, valemos a pena e fazemos sentido". História do Pranto critica tal conceito. Ao menino não interessa a posição de vítima.

Em certo ponto da narrativa, ele que chorava por qualquer motivo, mas apenas na presença do pai, decide que não mais deitará uma só lágrima, livre que é para escolher o caminho do entendimento daquilo que de fato acontece e não cair na armadilha de se render ao consolo dado àqueles que choram.

História do Pranto
Alan Pauls
Cosac Naify, tradução de Josely Vianna Baptistas
R$ 29,00

 

Regalo: Jorge Drexler e seu Oscar.

 

 

 



Escrito por Fernando Baia às 23h51
[] [envie esta mensagem
] []





LITERATURA - QUAIS SENTIDOS?

No Babelia, uma espécie de “suplemento literário on line” do El País, topo com um artigo do jornalista e escritor salvadorenho, Horacio Castellanos Moya comentando a reintrodução de obra de Haroldo Conti, um escritor argentino seqüestrado pelo regime militar daquele país, em 1976, e que consta até hoje das listas de desaparecidos.

 

Na minha ignorância jamais li quaisquer coisas de nenhum dos dois autores; o que detonou um “flash-back” sem viagem foi o título escolhido por Castellanos: “De quando a literatura era perigosa”. Recuei, recuei, até chegar num tempo em que literatura contemporânea era algo relevante, mesmo esteticamente, em Nuestra America. confessei vezes sem conta que um título, seja de música, livro ou filme muitas vezes funciona como um gatilho na minha cabeça e me ponho a escrever imaginando e antropofagando (inventei) a criação do outro.

 

Dessa vez o gatilho me jogou nas aulas de literatura do Percival, no colégio, lá se vão vinte e cinco anos. Engraçado que, mesmo quando os autores não eram necessariamente engajados – coisa difícil numa Latino América tomada por militares de norte a sul, nos sessenta, setenta e parte dos oitenta – havia um não sei o que de proibido em certos nomes, algo que só vim entender muito tempo depois e que foi bem captado no artigo do Babelia: a literatura era perigosa, incomodava, porque fazia pensar e, através dessa reflexão caíram não apenas regimes políticos violentos e impopulares, mas foram renovadas as formas de pensamento e expressão encalacradas e datadas do século XIX.

 

Um Borges, com todo seu conservadorismo político, conectou seu país e, de quebra, o nosso com uma tradição anglo-saxônica que, acredite quem quiser, também encontra ecos no nosso nunca suficientemente valorizado Érico Veríssimo, que inaugurou essa tradição de diálogos com outras literaturas, técnicas narrativas, temáticas e que tais.

 

Llosa, Cortazar e tantos outros foram combatidos pelos regimes de exceção – eufemismo para ditaduras – de tantos países porque, se negavam a estender os grilhões aos seus cérebros e, mesmo exilados, escreviam e escreviam e escreviam, denunciando a falência do conluio entre os prepostos locais dos interesses estrangeiros que capitalizaram economicamente o resultado dos Anos de Chumbo vividos pelo nosso subcontinente.

 

Por tudo isso fica a sensação de vazio nas obras literárias contemporâneas no Brasil, na Colômbia e mesmo na Argentina com sua gigantesca tradição. A vida de um leitor interessado nessa literatura e um reler sem fim uma vez que muito pouca coisa inédita, a dar-se crédito às resenhas, é digno de nota ou motiva um debate. Na capa do último número da Revista da Cultura, Pedro Juan Gutierrez, um escritor cubano cuja pose – sem camisa, sexagenário, com uma tatuagem totalmente old fashioned e um charuto “fálico” aceso na boca – simboliza o estado caquético atual desse tipo de literatura: o choque pelo choque, o sexo pelo sexo, as drogas pelas drogas. Os anos sessenta e setenta deixaram coisas boas e ruins, de resto, como todas as épocas; o problema é pensar que se pode viver neles para sempre sem pagar o preço.



Escrito por Fernando Baia às 22h25
[] [envie esta mensagem
] []





A OUTRA E A HISTÓRIA

Naquele filme bobinho e bonitinho, pra imitar o vocabulário “fofo” dos nossos dias, Em Algum Lugar do Passado, quando o personagem de Christopher Reeve tenta encontrar a mulher de seus sonhos, despoja-se de qualquer referência á sua época. Mal comparando, essa é a tarefa inglória do historiador que tenta compreender um momento histórico distante do seu. Inglória porque é impossível despir-se completamente de suas referências.

 

Eis a minha preocupação com essa nova safra de livros e filmes pretensamente históricos que assolam o planeta. Qualquer um conhece o fascínio exercido pelas tramas de época, estão aí A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, muito bem adaptada por Gilberto Braga; A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz e outros tantos sucessos da televisão brasileira.

 

O problema – e não estou dizendo que isso não existia antes – é a quantidade de bobagens que deixam de ser vendidas como novelas, romances ou sei lá mais o que e passam a representar a “verdade” absoluta dos fatos. Acreditem, eu ouvi gente saindo da sala de cinema e discutindo a possibilidade histórica do Código Da Vinci.

 

Assim, num filme como A Outra se perde todo o fundo histórico, a saber, a mulher usada como mercadoria e inventa-se uma heroína totalmente século XX – com influência do romantismo do XIX – capaz de influenciar diretamente na ruptura do monarca inglês com o papado e reverter seu papel de objeto. Toda a trama do filme partindo dessa premissa acaba sendo vista sob a ótica atual, empobrecendo o debate político e social que tentamos, acho que cada vez mais sem sucesso, implantar nas nossas salas de aula.

 

Causa ou conseqüência de nossos dias, tanto faz, estamos criando espectadores capazes apenas de observar o mundo através do próprio umbigo, infantilizados e infantilizadores. Quando o sujeito perde a capacidade de enxergar costumes e tradições diferentes das dele, se torna anacrônico e, pior, cego para os processos evolutivos das leis, das relações entre indivíduos e tantos outros processos pelos quais nossa espécie passou desde a revolução agrícola. Caminho fácil para engolir qualquer discurso generalizante feito “pelo alto” (leia-se classes dominantes), que apaga qualquer sentido da luta entre os diversos segmentos sociais e bota tudo na categoria de “benefícios concedidos às massas ignorantes e incapazes”. Daí pra aceitar o Fim da História, do Fukuyama é um pequeno passo. 

 

Pra terminar, espero que tenhamos muito mais filmes de época e não sugiro que sejam aulas de história filmadas. Aspiro mais que espero, citando um homem de Henrique VIII que caiu em desgraça com o rei, mas deixou um livrinho que ainda será estudado quarenta minutos após o Armageddon, que os autores marquem a diferença entre o cinema, a história e a literatura, companheiros de caminhada desde que mantidas suas características tão particulares e, quando der, deixem um espaço, ainda que pequeno, pra reflexão. Essas pobres almas, os professores, agradecem.



Escrito por Fernando Baia às 12h38
[] [envie esta mensagem
] []





MÚSICA - IT'S ALL RIGHT

Abrindo a madrugada, Madeleine Peyroux canta It’s All Right com uma levada mais bluesy que a registrada no CD Half a Perfect World. O pessoal que não tem mais o que fazer adora comparar a moça com Billie Holiday. Vamos para de bobagem e curtir o som. Vale abrir os ouvidos.

 



Escrito por Fernando Baia às 00h14
[] [envie esta mensagem
] []





BIENAL DO LIVRO DE SP

No UOL, chamada para a 20ª Bienal do Livro de São Paulo, no Centro de Convenções do Anhembi, do dia 14 ao dia 24 de Agosto. Programa imperdível pra quem gosta e suporta agitação, filas e otras cositas quem não faltam a esses megaeventos. O esforço compensa, seja pelo encontro com os autores em palestras pra lá de interessantes – Moacyr Scliar é sempre um prazer à parte – seja pelo preço de alguns livros e lançamentos os mais estranhos e pouco divulgados em outros espaços.

 

A lamentar só a confusão de quem escreveu a matéria e confundiu o sexo da guria bósnia – hoje uma moça de vinte e oito anos – Zlata Filipovic, autora do Diário de Zlata, no qual ela descreve os horrores da guerra e que foi comparado com o Diário de Anne Frank. Pra ficar com as antenas em pé: porque esses eventos dão espaço para os mesmos autores, consagrados ou eternas promessas? Sem questionar a validade do trabalho de Nélida Piñon, de Ligia Fagundes Telles e outros, mas foi só isso que nós produzimos? Pra não falar da “Geração 90”, Nelson Freire, Marcelino Freire, e as “velhas novidades” Márcia Tiburi, José Mindlin. Não há mesmo nada de novo embaixo do nosso sol?



Escrito por Fernando Baia às 00h04
[] [envie esta mensagem
] []





TÃO LONGE TÃO PERTO

Depois de uma semana de cansaço físico extremo, retomamos o ritmo mais ou menos normal do Clareando. Fica o agradecimento aos que acessaram o BLOG e aos que deixaram seus comentários. Merci.

 

******************************************

Acordamos com a CBN e o desabafo de uma brasileira presa na confusão do aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, em mais um capítulo da derrocada da Aerolineas Argentinas e, mais grave, outro tijolo na construção da impossibilidade de diálogo entre o casal Kirchner e a população do país que governam. Fala da agradecida cidadã após chegar às terras cantadas por Gonçalves Dias: “Graças a Deus, nós estamos no Brasil”.

 

A tendência à ironia nesse caso é enorme. Vou me controlar. A uma fala dessas deve se dar o devido desconto às horas de incerteza e medo pelas quais a moça deve ter passado. Uma pena que sirva pra alguns esquecerem que passamos por essas incertezas e, arrisco escrever, num estágio muito mais grave de descaso e confusão por parte das autoridades no caso do colapso aéreo de nossas companhias aéreas. Certamente a opinião da entrevistada não será compartilhada pelos que tiveram seus entes queridos colhidos em pleno vôo por um jato particular que não estava sendo monitorado pelo controle de tráfico responsável.

 

O fato que merece ser destacado – nessa modesta opinião que vos tecla – é a incapacidade de reflexão de um lado e de outro (comandantes e comandados) e como uma desgraça sempre substituirá outra sem que se tenha a menor idéia de como parar essa roda-viva. O que alguns enxergam com otimismo nas obras de Zygmunt Bauman – a fluidez, a substituição do antigo pelo novo – esse aprendiz de blogueiro vê com profunda apreensão. Será que estamos perdendo a capacidade de nos enxergar enquanto coletividade e nos vemos apenas como indivíduos? Será que o fato de um problema como esse ter ocorrido na Argentina faz do Brasil o melhor país do mundo? Ou será que problemas tão semelhantes ocorrem por que são frutos das mesmas opções econômicas concentradoras de bens e distribuidora de miséria feitas por “nossos guias” nas últimas duas décadas? Enfim, quem sabe dessas coisas é o Celso.

 

Quanto a mim, fiquei com uma vontade enorme de ouvir Carta ao Tom 74, do Toquinho, do Vinicius, com a participação do Quarteto em Cy e do próprio homenageado, cantando também a resposta, feita pelo Chico, diga-se de passagem. A primeira estrofe, depois de Anos Rebeldes, sempre esteve associada na minha memória àquilo que aconteceu no distante ano de1964, pelo qual pagamos o preço e colhemos os frutos. Só não sabia que alguém ainda iria dar continuidade à política de desmanche da educação. Não, a desgraça do outro não é nosso triunfo, com ensinou Eduardo Galeano em Veias Abertas da América Latina. Pena que ainda não aprendemos a ouvir o passado.

 

Música, maestro!  

 



Escrito por Fernando Baia às 11h26
[] [envie esta mensagem
] []





DEU NO NYT

Deu ainda agora no UOL Mídia Global, via The New York Times. Os adjetivos utilizados parecem perfeitos para definir a época atual: emotiva e vaga.

 

No post abaixo vocês têm uma rabugice nova sobre o filme A Outra.

Europa ouve Barack Obama com atenção

STEVEN ERLANGER
Paris


Para o senador Barack Obama, que só foi à Europa uma vez nos últimos quatro anos, ao fazer uma escala em Londres quando estava a caminho da Rússia, a resposta de muitos europeus à sua potencial presidência foi gratificante - emotiva, positiva, repleta daquela sensação de esperança que ele procura criar em relação a um Estados Unidos mais flexível e menos ideológico.

 

Já os governos e os políticos da Europa não estão tão certos quanto a isso.

Na noite da quinta-feira (24), em uma Berlim cintilante, Obama fez um discurso poético sobre os ideais europeus e a os pontos históricos em comum entre Estados Unidos e Europa.

Mas ele foi vago a respeito de questões cruciais como comércio, defesa e política externa, que atualmente provocam uma divisão entre Washington e a Europa, e que provavelmente continuarão dividindo os dois blocos, mesmo que Obama torne-se presidente (...).

 

(Link para a matéria completa).



Escrito por Fernando Baia às 07h29
[] [envie esta mensagem
] []





CINEMA - A OUTRA

Eric Bana parece um sujeito bacana. O tipo de sujeito ideal para uma conversa sem compromisso sobre a temporada dos Giants ou o último sucesso de público na Broadway. No entanto, seu Heitor parecia um pequeno proprietário rural, com família e filhos, não um príncipe de Tróia. Agora seu Henrique VIII passaria perfeitamente por um jovem corretor de Wall Street preocupado em comprar quantas ações pudesse dos sucos de laranja concentrados da Flórida.

 

Natalie Portman convence como stripper, como a jogadora maluca de Beijo Roubado e, eu vou jurar até quarenta minutos após o Armageddon que ela é a mãe de um sujeito chamado Luke Skywalker, mas... ela ainda não é Ana Bolena.

 

Scarlett Johansson trouxe, ao longo de todo o filme, lembranças de como me apaixonei por ela em Encontros e Desencontros e em Moça com Brinco de Pérola, mas... continua com o problema de escolher mal seus papéis. Acho que é caso para mudar de agente...

 

Tudo isso dito, A Outra é uma sucessão de equívocos cuja escalação dos atores nos papéis chaves nem é o pior deles. Típico filme que poderia ter sido pensado e feito para televisão, com atores mais baratos e sem criar tanto constrangimento. Um dramalhão que não empolga em um só momento e, quando dá pra gente pensar que a atriz do filme é a Kristin Scott Thomaz algo está fora de seu lugar.

 

Claro, a minha grande implicância é com o uso que se faz dessa pobre senhora, a História. No fundo, como concluímos ao final do filme, comparando o metier do jornalista com o do historiador, tudo é uma questão de quais perguntas serão feitas. Só exemplificando, se o sujeito Dom Casmurro e a única questão que tira do livro é se Capitu traiu Bentinho ou não, no fundo, não passou da primeira página de Machado de Assis.

 

Phillipa Gregory, em cujo livro The Other Boleyn Girl se baseou o filme e Valério Massimo Manfredi, autor de uma infinidade de livros cujo pano de fundo é o Império Romano, entre eles A Última Legião, tem todo direito de usar quaisquer fatos históricos e criar em cima deles. O problema, mas é apenas minha opinião, é criar toda uma mentalidade equivocada de se entender a história.

 

A esmagadora maioria dos personagens dessas adaptações sofre de uma visão romântica do século XIX e, a maior parte das vezes, tem-se a impressão que o jovem Werther, Goethe, entrará em cena a qualquer momento. Os defensores das liberdades dos autores defenderam esse ponto de vista como sendo apenas mais uma visão histórica e, modestamente, eu argumento que na verdade é uma visão a-histórica, uma vez que enxerga todo o caminho percorrido pela a humanidade apenas pela lente do seu/nosso tempo.

 

Não sem razão, os grandes momentos do filme estão nas mãos do tio e da mãe das irmãs Bolena: “traição é tudo aquilo que o rei e seus juízes decidirem que é traição”.

 

O medo dessa pobre alma que vos tecla é, a continuar nessa toada, a visão da Disney sobre a Revolução Russa - a saber, todo o movimento não passou de uma conjuração de feitiços do feio e perverso Rasputin para acabar com a bela família do Czar – será aceita como possibilidade histórica. Natalie enche a tela e os olhos, mas crer que Ana Bolena arquitetou a ruptura com Roma é, para ser simpático, ingenuidade.

 

(CONTINUA).



Escrito por Fernando Baia às 07h16
[] [envie esta mensagem
] []





COMISSÁRIO GORDON

Um bate-papo com o comissário Gordon

  

Abaixo vocês têm algumas das perguntas e as respectivas respostas do bate-papo entre Marco Aurélio Canônico, do Blog Ilustrada no Cinema, e Gary Oldman. Pra quem não se liga muito em filmes, apenas um repórter e um cara divulgando seu último trabalho.

 

Pra quem curte cinema e bom jornalismo, um aula como todas deveriam ser: simples, objetivas e com conteúdo pra gente ficar pensando por horas depois que o negócio acaba.

 

Gary Oldman – nessas questões e na íntegra – explora os caminhos que diferenciam um ator e uma estrela, explicita o que entende por ser bem dirigido e mostra algo que apenas tentamos discutir aqui no Clareando: como todo profissional, o ator também não trabalha o tempo todo no pico da performance. Quando, por uma soma de vários fatores, consegue atingir isso, então, os sortudos que tiverem a chance de assisti-lo se depararão como uma daquelas forças incontroláveis da natureza. Quem viu Pacino em Um Dia de Cão tem idéia do que está sendo dito. Ah, de lambuja, Oldman expõe os mecanismos de repetição na escalação de atores na “indústria” – quem vê novela já percebeu.

Pergunta: Seu personagem, apesar de ser um dos mais contidos, ganha mais espaço para que você possa atuar, nesse segundo filme. Que diferenças você vê em relação a "Batman Begins"?
Oldman: As circunstâncias são bem diferentes. Em termos da cronologia do filme, há uma diferença de poucos meses entre o fim do último e o começo deste. Um diretor menos habilidoso teria magicamente recolocado Batman na Mansão Wayne [destruída no primeiro filme], mas ela está sendo reconstruída e, por isso, ele vive numa cobertura na cidade. É nesse tipo de detalhe, que faz parte da constituição do filme, que Chris [Nolan] é muito bom. A relação [de Batman e Gordon] é ainda razoavelmente nova, mas já um pouco mais respeitosa e confiante. E tentamos lidar com a bomba atômica que explode na cidade, na forma do Coringa de Heath Ledger. É bem difícil policiar isso [risos].

Pergunta: Seu personagem é o único mocinho do filme, não?
Oldman: Sim, acho que sou o centro moral do filme. Gordon é, de fato, o mocinho _incorruptível, forte, virtuoso, honesto. É um papel muito divertido de interpretar. Eu tenho mais cenas neste filme, tem alguns momentos muito bons, mas quando você faz um personagem como este, tem que se contentar em ser o vaso para as flores, que são Christian e Heath. É como em "Hamlet", eu sempre penso em como deve ser difícil fazer Horácio, o melhor amigo do príncipe.

Pergunta: Quando o Sr. viu Heath Ledger atuar, achou que estava vendo algo extraordinário?
Oldman: Sim. Logo na primeira manhã de trabalho, já notava que ele estava fazendo algo fantástico. Agora que vi o filme pronto, é quase inacreditável quão extraordinário ele está, mas eu já sentia um pouco disso, trabalhando com ele. Era como se ele estivesse em uma freqüência que ninguém mais estava captando. Isso acontece às vezes, com os atores. Pacino já fez isso algumas vezes, com "Angels in America", "Um Dia de Cão", você vê aqueles trabalhos e pensa "nossa, isso é outro nível". Nicholson faz de tempos em tempos, Hopkins fez com Hannibal Lecter. São esses momentos em que parece que os atores quebram a barreira do som, e Heath certamente fez isso com este filme.

 

Pergunta: O Sr. já encontrou essa freqüência alguma vez?
Oldman: Não sei se já fui tão bom, para ser totalmente honesto. Mas já tive dias em que fiz papéis que me pareciam tão fáceis quanto respirar, que você nem sente como se estivesse trabalhando, eles se encaixam em você. Olhando minha carreira até agora, o Coringa poderia ter sido algo que me ofereceriam, quando eu era mais jovem, por causa dos tipos de papel que eu fiz. O que é fantástico em Chris, e o diferencia dos outros diretores, é que ele tem imaginação. Os outros diriam "queremos um personagem assustador, estranho, chamem o Gary, já o vimos fazendo isso". Chris Nolan me chamou para fazer o comissário Gordon. Com Heath, ele assistiu a "O Segredo de Brokeback Mountain" e viu uma atuação lá, com uma qualidade que o Coringa precisaria. Então, apesar de Heath nunca ter tido uma performance tão intensa, frenética, caótica [quanto a do Coringa], Nolan viu que ele poderia fazê-la. Isso é um talento, isso é boa direção.

 

Nota do Blogueiro: Oldman atingiu o pico em Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Coppola. Ali, ele era Drácula.



Escrito por Fernando Baia às 08h34
[] [envie esta mensagem
] []





ESTILHAÇOS

O fato é que não tem dado tempo de blogar com fôlego e ficava feio nomear o post novamente como “cacos”. De qualquer forma, tenho acompanhado com alegria os acessos ao Clareando e, agora, acho que já somos em número de oito. Divido abaixo os espantos que antecedem o final de semana e fica a promessa de voltar com um post de fôlego entre a madrugada de hoje e a noite de domingo. No entremeio, dropes, cacos e estilhaços.

 

*******************************************

Como previsto, a seleção masculina de basquete perdeu para a Alemanha e não estará em Pequim. Resultado de anos de picuinhas, mesquinharias e todo tipo de pequenez mental que se possa imaginar. Muito pouco pra quem já foi campeão mundial de basquete e, ao que tudo indica, muitos anos de escuridão vêm pela frente, uma vez que a Confederação Brasileira de Basquete não tem certeza se quer continuar ou não com o trabalho do espanhol Moncho Monsalve, sinal de que mais uma vez apostaram num santo milagreiro – que só existe naquele tipo de cabeça - em vez de pensar num trabalho de longo prazo, com as bases.

 

********************************************

O MASP abre hoje a exposição “Virtude e Aparência”, como informa o UOL, a terceira parte da reorganização do acervo. Imperdível porque muitas das obras – pertencentes ao Museu de São Paulo – foram expostas em “Sete Séculos de Arte Italiana”, em 1994. Longe, longe, longe uma das três melhores coisas que eu já apreciei em matéria de mostras coletivas. Se instado a dizer apenas um nome para convencer vocês oito digo sem pestanejar “Sandrino” Botticelli, apesar de Rafaello Sanzio e Tintoretto,com Ecce Homo, marcarem presença. Imperdível para quem gosta e gratuito às terças-feiras. Programão de final de Férias.

 

*********************************************

Rola, na próxima semana, nas cercanias da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí, mais especificamente na progressista Jaguariúna, o Segundo Festival de Inverno, de Música, Com direção artística do André Cardoso, músico da Orquestra Sinfônica de Campinas, paraibano que o destino generoso botou no meu caminho essa semana e que já rendeu conversa, conversa e mais conversa e um projeto de parceria entre música e educação. Destaque, segundo o André, para um francês chamado Fawzi Berger, percursionista de Bordeaux que toca na quarta, com o grupo Sax Bem Temperado, e na sexta com Luara Carrilho e Banda. Mais notícias de Fawzi, de Jazz, da França e do Festival no decorrer da próxima semana. Pra quem gosta e se interessou, de 22 a 27 de julho, em Jaguariúna, pelo que entendi, próximo à “Maria Fumaça”.

 

***********************************************

Junto com a estréia de Batman – The Dark Knight (em 14 salas da gloriosa cidade Princesa), mas muito mais discretamente, estréia também A Outra, história romanceada das irmãs Bolena e daquele rei barraqueiro, dessa vez na pele de Eric “God Bless Us” Bana. Verei os dois numa daquelas sessões perdidas na noite. Se vocês não encontrarem nenhum post sobre A Outra, não provoquem. É sinal que tive ganas de entrar tela – Rosa Púrpura do Cairo às avessas – e resolver a coisa toda no braço. As duas forças da natureza que fazem o papel das irmãs devem garantir a paz e a ordem até o final do filme a esse sofrido coração.

 

*************************************************

Pra finalizar por enquanto, aquela sensação que Pierre Bayard diz que acomete todos os leitores cedo ou tarde, a sensação angustiante de que não se consegue ler tudo aquilo que se gostaria. Fato é que uma incursão à Editora da UNICAMP me botou em “depressão bibliófila” (inventei, inventei e, claro, o corretor do Word, que é uma besta, não reconheceu) e sai agarrado e lendo no ônibus de volta, A Fábrica do Antigo, livro organizado pelo professor Luiz Marques, cujas aulas de História Medieval nas tardes de sexta, há mais ou menos quinze anos atrás alucinavam o medievalista amador que ainda hiberna dentro dessa pobre alma que vos tecla.

 

Marques reuniu uma seleção de doutos que discorrem ao longo de quatrocentas páginas sobre a idéia de Antiguidade e como, ao contrário do que se prega com ênfase, a Antiguidade Clássica não é uma idéia construída pela modernidade e, sim, pelos seus próprios contemporâneos. Em poucas palavras, a valorização da cultura grega e greco-romana começa ao mesmo tempo em que suas obra vão sendo produzidas. Mais ainda, os especialistas percorrem os séculos mostrando a influência do “ideal clássico” em diferentes movimentos da história da arte, da ciência e da religião. Um daqueles livros, espero estar errado, condenado a ser conhecido apenas “intra muros e inter pares”. Vou comentando à medida que avanço.

 

************************************************

Escusas pela correria.



Escrito por Fernando Baia às 20h15
[] [envie esta mensagem
] []





CACOS

O mundo parece ter entrado num ciclo autofágico cuja epígrafe bem pode ser uma música antiga do Lobão: “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”. Isso é mais estranho na medida em que o próprio Lobão já pulo fora dessa há tempos. Explico.

 

Ao que tudo indica, a Freguesia, “antenada” com o resto do país, assistirá amanhã a estréia nacional do novo filme do homem-morcego. A única coisa de que se fala é a performance de Heath Ledger como o Coringa. Até aí tudo bem. O que enjoa são as comparações cansativas com Jack Nicholson no filme de Tim Burton, em 1989. Ninguém notou que são propostas diferentes?

 

Até quando vai essa mania de querer começar sempre do zero e transformar tudo o que passou em terra arrasada? Sintoma de infantilismo. Tem algo errado quando você não consegue estabelecer diálogo com outras gerações e, mais errado se lembrarmos que, entre um filme e outro, pouco menos de vinte anos se passaram. Um espirro de tempo.

 

*******************************************

Na correria nem sobrou tempo de comentar que a reunião anual da SBPC que chega ao seu fim amanhã, rolou durante a semana na UNICAMP. A área de humanidades, como sempre, é o primo pobre e do qual pouco se fala. Fiel aos princípios tentarei assistir amanhã uma mesa sobre a obra de Edward Said, mais especificamente “Orientalismo”, com alguns especialistas e mais Emir Sader. “Diversão” garantida.

 

********************************************

Loucura a quantidade de títulos interessantes que vem sendo despejados nas boas lojas do ramo. Primeiro no Elio Gaspari e depois em revistas e jornais, um livro cujo título já enfeitiça: Eu Fui Vermeer, do irlandês Frank Wynne. Por meio de uma atmosfera de livro policial, Wynne conta a história de Han van Meegeren, notório falsário que na primeira metade do século XX especializou-se em reproduzir – e vender muito caro – a técnica de Johannes Vermeer, o genial autor de, entre alguns outros, Moça com Brinco de Pérola, pelo qual eu já era apaixonado muito antes da Scarlett Johansson encarnar nas telas de cinema a personagem que inspirou o quadro.

 

Aliás, rola toda uma literatura maravilhosa sobre falsificação de obra de arte cujo ponto alto, no meu modesto gosto e limitação, é um ensaio de Carlo Ginzburg sobre as técnicas de autenticação dos quadros de alguns mestres. Tomei conhecimento desse texto por meio de João Moreira Salles, no já citado Uma História Idiossincrática da Simplicidade.

 

********************************************

Ainda no terreno do estranhamento, alguém pode esclarecer o que acontece com a imprensa esportiva? A síndrome da opinião a qualquer custo faz com que o gesto de ouvir ou ver algum programa esportivo transforme-se numa experiência surrealista. A bola da vez é a seleção masculina de basquete esquecida por tudo e por todos durante décadas. Por obra de mágica ou miopia crônica criou-se uma expectativa de que, dessa vez, o time vai disputar uma Olimpíada. Como o mais óbvio, por falta de planejamento adequado, estrutura, “igrejinhas”, e tantas outras coisas, é que o Brasil fique de fora de mais uma edição dos Jogos Olímpicos – torço para que ocorra o contrário, mas não sou louco de me iludir – quando o Pré-Olímpico acabar ele demitirão o técnico espanhol e começarão tudo do zero novamente. Até quando? A experiência do Vôlei não servira pra nada? Vamos continuar imolando talentos e nos lembrando deles, com cobrança sempre exagerada, de quatro em quatro anos?

 

“Oh, Lord, want you buy me a Mercedes Benz”.



Escrito por Fernando Baia às 09h59
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]