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Clareando Idéias
 


MÚSICA ... OU ALGO PELO ESTILO

PARA MARCÃO BERNARDI

Dizem os muito entendidos que Kind of Blue é tão perfeito que é cultuado e adorado até por quem nunca ouviu um disco de jazz na vida. De fato, são as notas de Freddie Freeloader, a faixa dois no mítico bolachão, que escapam do “tocador de alguma coisa do computador” e embalam esse mal ajambrado post.

Eu já tentei teclar acompanhando o trompete de Miles, o sax alto do senhor Julius “Cannonball” Adderley e o piano de Bill Evans; tentei “espichar” o ouvido e distinguir as notas suaves, mas personalíssimas de John Coltrane e o baixo “operário” e operoso de Paul Chambers. Atualmente acompanho sem sucesso a baqueta-vassourinha de Jimmy Cobb. E a experiência pela qual eu já tinha passado outras tantas vezes, se faz única. A casa toda, sem esquecer um cômodo, um canto, um rejunte de azulejo, se enche de notas musicais. Luzes acendem-se e apagam-se, suaves, é claro. Perfumes de outros tempos enchem o ambiente...

Dessa vez o CD é meu e ele vem acompanhado de um segundo – sobra de estúdio e takes alternativos e, preciosidade das preciosidades, de um DVD realizado no início dos anos 2000 e corretamente intitulado Celebrating a Masterpiece. E, ainda, acabei de ler isso no encarte, um texto extra em formato PDF, no disco 1, para o qual, melhor título não poderia haver: “O Último Rei da América: Como Miles Davis inventou a modernidade”, escrito por Ashley Kahn, autor de um belíssimo livro celebrativo do qüinquagésimo aniversário da “obra prima”.

Aliás, Kahn já havia disponibilizado aos mais simples dos mortais outro livro em que disseca por que alguns têm o dom de fazer o sublime – música ou algo pelo estilo, e outros - como a pobre alma que vos tecla – só cabem no papel de platéia embasbacada e extasiada. Ele também expôs a feitura de Love Supreme, de John Coltrane. Para quem não se lembra ou mesmo não conhece, Love Supreme foi homenageado em forma de citação por Bono Vox e “quadrilha” em Angel of Harlem, uma ode à música negra americana que influenciou tantos branquelos de todas as idades de um lado e do outro daquele belo oceano, o Atlântico.

 

Eu não gosto de tudo que o Miles fez na vida e, num primeiro momento, quase descarto a fase “roupas esquisitas-tocar com a cara virada para a parede”. Definitivamente, eu não gosto de jazz-fusion. Só então me lembro dos caras que o “Rei” trouxe à luz, a começar de um dos meus ídolos na juventude nem tão distante assim, o senhor Anthony Armando Corea Jr., Chick Corea para os menos íntimos. Chick também descambou para o fusion mais superficial, mas antes ele fez música de verdade e de primeira.

E depois dos parágrafos acima, fazendo uma comparação futebolística, é como se, depois de jogar num time que tivesse Gérson, Tostão, Rivellino, Clodoaldo e Jairzinho, o “negão”, saísse por aí a descobrir Zico, Sócrates, Falcão, Batista, Careca e eu vou parando por que o coração não precisa ser tão judiado assim e, no fim das contas, saudade, mesmo a boa, sempre dói um pouco.

Mesmo o “pior” Miles é melhor que o melhor da maioria. Ave, Miles. Morituri te salutant.

Ah, vocês cinco precisam me desculpar, mas a volta de um post de mais fôlego no Clareando precisa ser dedicada ao sexto integrante desse seleto grupo de gente paciente. Ave, Marcão.



Escrito por Fernando Baia às 21h28
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