FOTO: WIKIPEDIA - Parque Grande Sertão: Veredas, criado no município de Formoso (MG), em 1989.
Alguns títulos ou frases têm o insuperável poder de nos remeter a todo um mundo infinito, seja ele de fantasias, de idéias que se cruzam ou algo que o valha. O certo é que não se volta desses mundos da mesma forma que para eles se partiu; alguns simplesmente não voltam.
Gustave Flaubert em sua frase* nada enigmática, mas deliciosa, sobre Madame Bovary sempre me empurrou diretamente para o cancioneiro de um certo senhor Francisco Buarque de Holanda e sua muitas vezes decantada sensibilidade para mergulhar no universo feminino – a custo contenho a vontade de escrever “universo da mulher”, expressão de resto mais verdadeira.
Flaubert explicava aos desatentos que, por mais distante que pareça de seu criador (o romancista) – distante em hábitos, intelectual ou fisicamente, de gênero diverso – a criatura ( o personagem) carrega, a flor da água ou no mais profundo abismo, as inquietações por trás da pena que a descreve. Dito ou escrito parece banal. Mas, por um instante que seja, tentem pensar o que poderia unir Gustave Flaubert a Emma Bovary. Nos atos da segunda as inquietações do primeiro? O adultério femininopelo filtro do olhar masculino? Que sei eu?
Tudo isso para dizer que a mim encanta, como já escrevi outras vezes, os livros que dialogam com outros livros num parolar sem fim. Num breve passeio de começo de noite pela Livraria dos Herz – onde, aliás, rabisquei à caneta o início desse post, com receio de que a idéia fosse ligeira demais para que eu pudesse retê-la com minha rede de caçador amador de borboletas – encontro dois tipos de livros dedicados a esmiuçar preciosidades como a Ilíada ou a Odisséia e, claro, belezas como Grande Sertão: Veredas ou Dom Casmurro.
O primeiro grupo é composto por obras esculpidas pela paixão aliada ao amor pelas letras. Os autores homenageiam seus objetos de estudos com ensaios que não têm a pretensão de ensinar ninguém a ler uma obra prima, no máximo mostrar algumas chaves de interpretação, as quais, felizmente, podem ser rearranjadas ao gosto do futuro leitor. Para saber como são os livros do segundo grupo basta inverter os sinais do que escrevi acima. Verdadeiros vampiros da obra alheia, contentam-se em freqüentar seminários e arrogar-se detentores da última palavra sobre um artigo obscuro e, freqüentemente, irrelevante desse ou daquele autor. Marx é um pobre coitado que tem milhares de sugadores inventando significados os mais delirantes para coisas que ele nem escreveu. Machado de Assis é outro que padece dessa má sorte e para cada leitura original e lúcida sobre o Casmurro e “os olhos de cigana oblíquos” de Capitu surgem dez interpretações dignas de serem trancafiadas na Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte junto com seus respectivos autores.
João Guimarães Rosa, talvez pela natureza de sua obra ou, bem possível, por excesso de otimismo de minha parte, possui um equilíbrio maior entre delirantes sentados em cima do espólio de Riobaldo e aqueles que de fato tem algo a dizer e, por isso mesmo, não temem compartilhar sua pesquisa e nem se arrogam portadores de verdades insondáveis.
A professora Kathrin Rosenfield parece jogar no primeiro time. Em seus livros disponíveis a erudição vem a serviço da obra de Rosa e, mesmo os títulos que se apresentam mais didáticos, no fim das contas, apontam para uma verdade insofismável: a beleza, o maravilhamento e a graça não podem ser trancafiadas em gaiolas frias e destituídas de vida. Os livros de Rosenfield – não li tudo, claro – ao invés de afastar o leitor do original tem a generosidade de se saber pontes/atalhos para o mergulho final no deslumbramento dos universos construídos com leveza e profundidade, aqueles que merecem o rótulo “clássicos”. Numa palavra, empurram o leitor para se empanturrar do original.
Rosenfield diz que meu segundo encontro com Riobaldo já está passando da hora. Assim, arrumo as malas e me vou para o Grande Sertão.
Tal como um atleta que fica algum tempo afastado de suas atividades por contusão e ao retornar sente a falta de ritmo, dores musculares e precisa reaprender movimentos que já eram automáticos, eis aqui esse modesto aprendiz blogueiro tentando há alguns dias retomar o ritmo normal do Clareando.
Felizmente, não estive afastado por contusão, mas pelo acúmulo de compromissos profissionais – aulas, aulas e mais aulas, com uma palestra para um público prá lá de interessante no meio.
Muitos assuntos foram passando e nada de conseguir sentar e escrever. Livros, artigos e filmes – só em casa, não há tempo para cinema – alguns muito bons, outros nem tanto, foram sendo “consumidos”. Homeopaticamente tentarei dar conta dos que mais me impressionaram nos nossos próximos encontros (posts). Para os que ficaram por aqui, Merci.
De um amigo que fechou uma vídeo locadora arrematei três preciosidades: A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo; Kedma, de Amos Gitai e Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera, de Kim ki Duk, não perguntem por quê, esse último freqüenta a minha lista de dez mais de todos os tempos. Críticas aos cuidados da redação. Já escrevi umas trinta vezes nesse espaço que a maior invenção acoplada ao DVD são os extras e, no caso do filme de Pontecorvo, o segundo disco vem recheado de entrevistas e documentários referentes ao processo de descolonização da Argélia, material obrigatório para sala de aula. A Vídeo Filmes, produtora dos Moreira Salles, capricha no material.
Do filme de Kim ki Duk fica sempre uma sensação de delicadeza que não tem a ver apenas com a beleza de fotografia, mas com o ritmo que convida o espectador a desacelerar seu ritmo e prestar uma pouco mais atenção naquilo que de fato vale a pena. Regalos em um ano em que não pude e provavelmente não poderei ver nem ao menos um filme do Festival É Tudo Verdade – termina domingo.
Depois comento o filme de Gitai, sobre o qual li muito, mas ainda desconheço. Eis, outra vez, Eretz Israel rondando meus caminhos.
Impossível terminar esse reencontro sem mencionar dois eventos esportivos da maior importância. Doravante e até quarenta minutos após o Armageddon, o dia Primeiro de Abril ficará consagrado como dia de louvor à Bolívia, no Brasil. 6 x 1! Dá para acreditar?
No último sábado, depois de muito tempo, fui ao Estádio do glorioso alvi esmeraldino campineiro assistir ao jogo – ou pelo menos tentativa – contra o Corinthians. De mudança para a série A2, onde passará a abrilhantar outras cidades, o Bugre foi fantasma do time que já me encantou. Valeu mesmo pelos comentários impagáveis e impublicáveis do professor Marcão Bernardi que dois de vocês já perguntaram se é um alter ego inventado por esse pobre homem que vos tecla. Ele existe, posso provar!
Abaixo, uma matéria sobre Isay Weinfeld e sua paixão pelo Radiohead, publicada a cerca de quinze dias atrás no suplemento Aliás, do Jornal dos Mesquita. Vale a vista. Scusa pelo post datado. Mais abaixo, um vídeo do Coldplay. A música é legal, mas as imagens provocam crises de labirintite.
Fanático pelo Radiohead, o arquiteto Isay Weinfeld rejeita a hierarquia entre cultura popular e erudita
Ivan Marsiglia - O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO - Isay Weinfeld está feliz. Escarrapachado na poltrona da sala, toma um gole de cachaça Anísio Santiago, volta-se para sua fabulosa discoteca, que ocupa de ponta a ponta um cômodo da residência, e aumenta o volume do microsystem. Os olhos do arquiteto mais badalado do Brasil na atualidade - e um dos dez preferidos do historiador de arte francês Philip Jodidio, organizador do guia Architecture Now, da editora Taschen - brilham quando o tema é música ou cinema. A trilha sonora é Farewell to Philosophy, do compositor erudito contemporâneo Gavin Bryars, que não por acaso trocou a cátedra em filosofia pela arte. O diálogo, no entanto, é sobre a banda de rock Radiohead, que se apresenta sexta-feira no Rio de Janeiro e domingo em São Paulo.