CINEMA - NA NATUREZA SELVAGEM

Sean Penn não é um sujeito que faz escolhas fáceis, seja na carreira, seja em sua vida pessoal. Meter-se em uma sala de cinema e lá ficar por duas horas e meia vendo um filme dirigido por ele também não é uma escolha fácil, mas, sabem os que acompanham sua carreira, será prazeroso. Bem entendido se você entende prazeroso por bom cinema. Caso tenha entrado na sala procurando diversão, algo me diz que você não agüenta sessenta minutos de filme.
Lendo esse primeiro parágrafo pode-se pensar que Na Natureza Selvagem é pretensioso, um daqueles filmes tediosos, os quais só entendem os que privam da mesa e de outras intimidades do diretor. Engano. O problema, ou solução, depende de que lado você está, é que Penn não faz concessões ao gosto médio. Primeiro de tudo, a tal natureza selvagem está lá e não apenas no Alasca, mas ao longo da trilha de Christopher Mc Candless. Ao contrário de grande parte dos filmes, a fotografia, muito bem feita, não glamouriza as belezas naturais e sim as mostra como o obstáculo a ser dominado. Com essa ressalva, cabe dizer que os grandes planos são fantásticos e a descida do Rio Colorado vale cada centavo do ingresso.
Segundo ponto a ser considerado, a trilha sonora é de Eddie Vedder, vocês sabem, o líder e a voz do Pearl Jam. A voz de Vedder soa como a de um francês que sobreviveu em Agincourt. As letras até apontam para uma redenção, que não chega nunca. Outra escolha que afasta os “fregueses”, a narrativa não é linear e não é utilizada em nenhum momento a linguagem veloz de alguns dos pretensos vanguardeiros, nem a gritaria histérica que cansa. O filme vai sendo construído quadro a quadro, lentamente, com lapsos de tempo e narrativa em off da irmã do protagonista.
Tudo isso posto, a história baseada nos relatos de Christopher, escrita por Jon Krakauer e que levou dez anos para ser roteirizada pelo próprio diretor, fala de rupturas e buscas, a saga de um sujeito muito bem nascido que rompe com o que ele mesmo entende como a sociedade hipócrita da Costa Leste e empenha-se em uma viagem – em muitos sentidos – cujo destino final, vocês já perceberam, é a imensidão gelada do Alasca. Ao longo do caminho, vai encontrando pessoas que também romperam com o tal sonho americano e, a mensagem que eu não sei se ficará clara – e isso é um problema numa época em que meninas engravidam por conta de um filme (Juno) ou fogem por conta de outro (O Beijo Roubado) – é: existe um custo, e ele não é baixo, nas rupturas radicais.
Emily Hirsch empolga no papel principal e lá pelas tantas o cinéfilo da graças a Deus por Penn ter desistido de trabalhar com Di Capprio – já dá pra antecipar as caras apalermadas que nos fariam perguntar se Jack Dawson realmente morreu no Titanic. Hirsch tem um repertório mais amplo e segura bem a maioria das situações proposta, assim como o elenco de apoio, sem nenhum grande destaque para os mais conhecidos como Márcia Gay Harden ou William Hurt, mas uma generosa participação oferecida pelo diretor ao ator Hal Holbrock, que concorreu ao Oscar de coadjuvante no papel do veterano da marinha americana que tenta religar e trazer Chris para os braços seguros da civilização.
Em resumo, Na Natureza Selvagem vale cada minuto de tempo investido nele e, tenho a impressão, não perde muito com a exibição em tela pequena. Ficam questões a serem respondidas e que martelam o cérebro “das gentes” juntamente com a bela canção que fecha a história. O site do filme é muito interessante e me apresentou a um troço do qual eu nunca tinha ouvido falar, mas ficarei freguês nas próximas semanas: o IMEEM, pelo que entendi um My Space com outro nome e igualmente cool. Ia esquecendo, ao longo do filme e no contato com os coadjuvantes um alerta velado pra quem quiser pegar: os riscos de se prolongar uma adolescência que consome quando não é decifrada e abandonada e, ainda, os riscos maiores de antecipar a maturidade, que acaba por imolar os incautos.
Vejam!
Escrito por Fernando Baia às 01h19
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DVD - ELIZABETH THE GOLDEN AGE
No final de semana, em DVD, vi Elizabeth – The Golden Age. Para qualquer um que não seja apaixonado por história, cinema, Inglaterra e Cate Blanchett, não necessariamente nessa ordem, o filme é muito bom e – tem tempos que eu não falava nisso – os extras do DVD são ainda melhores. Mas – e sempre tem um mas – alguma coisa não soou bem com aqueles que eram, disparado, as melhores coisas do primeiro filme, a saber, Cate “Over the Top” Blanchett e Geoffrey Rush, um ator tão bom que deu credibilidade ao Barbossa (Piratas do Caribe) e conseguiu não ser ridículo – antes pelo contrário – dançando com Peirce Brosnan em O Alfaiate do Panamá.
Por mais talentosos que sejam deve ser mesmo difícil retomar papéis com a carga emocional da rainha que consolidou o absolutismo naquelas estranhas ilhas batidas pelos ventos e pelas chuvas ou de seu conselheiro, Francis Walsingham, que tranquilamente poderia ter saído das páginas daquele livrinho escrito há mais de cinco séculos por um florentino que não tinha muito que fazer e resolveu inventar as Ciências Políticas Moderna, Nicolló Machiavelli. Pra quem quiser ouvir: o discurso de Walsinghan no primeiro Elizabeth é O Príncipe na veia. Claro, passados historicamente vinte oito anos entre a tomada do poder e a luta com Felipe II e sua “Invencível Armada”, o contexto é outro é o discurso foi amainado.
O que mais incomodou no filme e incomoda em tantos outros – desnecessário mencionar a Helena (Diane Kruger) de Tróia – é a visão classe média burguesa que sai da boca dos personagens e torna tudo tão “novela das oito”. Eu não vou deitar falação em Clive Owen porque, entre outras coisas, acho que ele funcionou bem na maioria dos papéis que enfrentou – não é grande, mas está a caminho. A rainha tendo ataque de ciúmes por conta do romance entre Walter Raleigh e sua aia preferida fere os limites do bom senso. Scusa. Um rei ou rainha feridos em seus brios, sobretudo os amorosos, não tem apenas um ataque histérico, o ataque, via de regra, é seguido da execução daquele que ousou contrariar a vontade divina do soberano.
No mais, o trabalho de Shekhar Kapur e sua equipe salta aos olhos nos extras. Um passeio pela arquitetura da Inglaterra é mais que qualquer cinéfilo pode pedir de um DVD. Ainda, uma generosa apresentação de Guy Dyas, responsável pela cenografia e por construir um modelo de navio que, em tempos diferentes, foi o Tiger, de Raleigh, um galeão espanhol e o navio líder da Invencível Armada. O trabalho de câmera foi primoroso e atingiu com brilho o objetivo de, ao aproveitar os imensos espaços das locações (catedrais, palácios, a Universidade de Cambridge) mostrar a proporção entre os indivíduos e os eventos históricos.
Por fim, a discussão na qual eu só embarco se vocês seis quiserem, sobre a veracidade dos fatos históricos. Os principais eventos, quais sejam, a conspiração católica para depor Elizabeth e colocar Mary Stuart no trono da Inglaterra, a disparidade de forças entre ingleses e espanhóis até então, o problema da linhagem sucessória, tudo isso foi respeitável. O resto, como sempre me lembram, é cinema e não pesquisa acadêmica. As liberdades! As liberdades!
A discussão que mais me interessou tenha existido de fato ou sido inventada, foi a questão da execução de Mary Stuart. Elizabeth preocupa-se com o fato de uma rainha, portanto uma “igual”, ter sido morta por sua ordem. Apesar de a Igreja Anglicana ter rompido com Roma e o soberano inglês acumular a função de chefe religioso, ainda era muito forte a idéia do Direito Divino, isto é, um rei ou rainha somente o são por vontade de Deus. Para além do trauma de consciência – nesse caso, dispensável – a questão política é: existe limite até para as vontades do Estado Absolutista? Vale a discussão, pois toca na questão profunda da religiosidade da época.
Escrito por Fernando Baia às 12h32
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VIEIRA VIVE
Na Folha, “Mosteiro vai restaurar cinco volumes dos “Sermões” de padre Antônio Vieira”. E a explicação: o Mosteiro da Ordem de São Bento em Salvador, o primeiro mosteiro beneditino fundado no país, em 1582, com verbas da Secretaria da Cultura da Bahia investirá cerca de R$ 300 mil para restaurar obras raras, entre elas, os referidos volumes – quatro dos quais impressos quando Vieira ainda estava vivo.
O Padre Antônio Vieira foi um homem pré-iluminista como todos sabem e, por conta de sua longevidade (1608-1697), foi uma das testemunhas mais importantes do século XVII. Qualquer comparação separada por três séculos está fadada a cair no descrédito ou no ridículo, mas é difícil resistir ao riso compulsivo quando se põe frente a frente um monstro da oratória como Vieira e os “papas” do falar em público dos nossos dias. Frutos de uma sociedade que privilegia, acima de qualquer coisa, a técnica e que não tem mais que dois minutos para ouvir, ler ou sentir qualquer coisa, essa gente elogia Os Sermões em público, por que é de bom tom, mas com a desculpa de “cada qual de acordo com seu tempo”, pretendem comparar o incomparável, a saber, uma obra de gênio feita para resistir aos tempos com os manuais de comportamento descartáveis das listas dos mais vendidos.
Como diz a Naomi, vale bem a lida, tanto a matéria da Folha (link acima) quanto as obras do jesuíta – não apenas os Sermões, que podem ser lidos aleatoriamente, mas suas cartas, organizadas no Brasil em três volumes, pelo professor João Adolfo Hansen. O valor citado acima é ridiculamente baixo diante das necessidades da cultura, no entanto, é um começo.
Escrito por Fernando Baia às 12h18
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GARFIELD
Não sei se mais alguém além do Ombudsman desse BLOG notou, mas o fato é que a semana se foi, outra começa e ÁFRICA 2 não rolou ainda. Explicação simples: diante de tanta oferta daquilo que mais gosto, a saber: música, cinema, fotos e mais, mais, mais, muito mais, fiquei sem paciência para escrever sobre política e economia, coisas que, de resto, sou ainda mais amador do que nos outros temas.
Mas, como compromisso em regra se cumpre, ao longo da semana desenvolvo o tema, o qual na verdade era um comentário sobre um BLOG muito legal, o PÈ NA ÁFRICA, escrito pelo Fábio Zanini e algumas reportagens publicadas no rastro das eleições no Zimbábue.
Ah, o título do post é uma alusão à síndrome das segundas-feiras brilhantemente descritas pelo gato criado por Jim Davies.
Voltamos. Hoje, espero.
PS: A vitória da “Fúria Espanhola” na Eurocopa mais sem graça que se tem notícia representou, a bem da verdade, a vitória do futebol contra aquele similar esquisito, praticado pelas tribos bárbaras do centro da Europa e, de passagem, eficiente em levantar títulos de forma burocrática.
Escrito por Fernando Baia às 11h47
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