Para quem não leu no "Escrevinhador", do Rodrigo Vianna, republico. Porque é preciso discordar do abraço dos afogados.
"Enquanto isso, na pequena Islândia..."
Por FLÁVIO AGUIAR, da Rede Brasil Atual
Era uma vez um país pequeno, chamado Islândia. Ninguém conhecia muito do país, a não ser que ficava no círculo polar, tinha vulcões cujas cinzas de vez em quando fechavam o tráfego aéreo na Europa, e tinha muito pouca gente (uns 300 mil habitantes, menos do que quase todas as capitais brasileiras). Mas de uma hora para outra o país ficou famoso. Saiu em tudo o que é jornal. Por quê? Porque se tornara a bola da vez, a menina dos olhos do ideário neoliberal. Desregulara tudo na economia, sobretudo no setor financeiro. Foi uma festa, e uma glória! “Como a Islândia acertou”, cantavam todos os sabichões (pundits, em inglês) da mídia e da economia. Isso porque no nosso recanto, na América Latina, vicejavam aqueles “mofados” herdeiros do decrépito terceiro-mundismo, os nostálgicos do socialismo, os Lulas, Chavez, depois Evos, Correias, Kirchners, Tabarés, Mujicas, etc.
E o capital rolava, cantava e tocava a música para todos dançarem. Na Europa, então, foi uma correria: todos queriam ir trabalhar na Islândia. Não havia garantias, but who cares? Quem se importa? Tinham emprego, tinha din-din rolando para os bolsos…
Ocorre que assim como o sistema financeiro desregulado tragava dinheiro de todos os lados, ele acabou tragado também por todos os lados. Os três maiores bancos islandeses movimentavam números – em créditos e débitos – muito maiores do que a economia do país. Quando as finanças internacionais derreteram em 2008, os bancos islandeses viraram (ou fizeram) água, porque o Banco Central Islandês não teve como garanti-los diante da fuga de capitais dos bancos internacionais. O país foi para o brejo. Milhares de pessoas dormiram empregadas e acordaram desempregadas, assim, do dia para a noite e da noite para o dia. Sem direito a nada. Aí a frase ficou assim: era uma vez a Islândia…
A Islândia, de novo, era a bola da vez. Primeiro, veio o socorro do FMI. Com a receita habitual: arrocho, “austeridade”, coisas assim. O governo adotou. Em conseqüência, caiu. O novo governo, social-democrata (o primeiro em décadas) não rompeu com o FMI, mas recauchutou as medidas. Adotou seguranças para o novo sistema bancário. Fez uma devassa no setor, o que resultou até em processos e algumas detenções. Nada muito grave, mas serviu para mostrar que agora havia disciplina no pedaço. Além do FMI, a Islândia negociou novos empréstimos com uma pluralidade de países, Holanda, Rússia, França, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Polônia, Alemanha, Noruega. Recuperou o fluxo de capitais, mas de modo mais disciplinado. Com isso, a economia voltou a rolar. A dívida pública foi estabilizada em torno de 90% do PIB (antes da farândula financeira era de 30% do PIB; logo depois passou a mais de 120%). Mas a dívida externa total da Islândia, em 2008, incluindo o setor privado, era de 50 bilhões de euros (para efeitos de cálculo, porque a Islândia não pertence à Zona do Euro), sendo que seu PIB anual era de 8,5 bilhões… A Islândia se inscreveu para entrar na U. E. – mas não na Zona do Euro. A crise da dívida pública dos países dessa Zona, a partir de 2010, praticamente não a afetou. Ao contrário, a favoreceu. A economia islandesa está se recuperando. Segundo Paul Krugman no NY Times, em vez de encolher a rede de proteção social, a Islândia ampliou-a, mesmo com cortes na despesa pública. Sustentou o poder aquisitivo da população. Não fez, como a Zona do Euro força os gregos a fazer, os mais desvalidos pagarem a conta. Os empregos estão voltando. Gente que fugira com uma mão na frente e outra atrás em 2008 voltou com as duas mãos para a frente em 2011. Os três bancos que quebraram em 2008 foram estatizados, e parte de suas dívidas congeladas (é verdade que parte de seus ativos depositados fora, em particular na Holanda e no Reino Unido também foram congelados). Dois deles foram reprivatizados, mas o terceiro segue sob controle estatal. Todo o setor foi redisciplinado.
Por quê tudo isso? Porque a Islândia tem soberania sobre a própria moeda, entre outras razões. Porque seu Banco Central, ao contrário do Banco Central Europeu, tem um Tesouro que emite letras, toma e faz empréstimos, enfim, age como um banco. Em 2011 a economia islandesa é considerada, inclusive pelo FMI, como renascida. Já a da Grécia só vai renascer, se deixarem, em 2020, quando sua dívida pública vai ser reduzida a 120% do PIB, e está com uma economia moribunda.
Palavras de David Oddson, do BC islandês: “Se estivéssemos amarrados ao euro (…) teríamos de sucumbir às leis ditadas pela França e pela Alemanha”.
Como a Grécia, que amargou um ano e meio de desmazelo, e vai amargar mais dez de recessão “austera”, porque perdeu sua soberania (não só porque entrou na Zona do Euro, é verdade).
Mas agora a imprensa convencional não fala mais da Islândia. Afinal, ela não é mais a menina dos olhos do seu ideário. A Islândia ficou sem vez. Só tem, quando algum vulcão entra de novo no cenário.
Pat Metheny, como tantos outros, fez o “famoso” pacto. O diabo é que ao contrário das velhas lendas do Blues, os pactos modernos não são feitos para que o desventurado ache o acorde ou a letra perfeita, mas simplesmente para que o seu som “toque na rádio” e ele receba as trinta moedas. Almas, nos dias que seguem, estão em “liquidação” a preço módico.
Felizmente, pra quem gosta, sempre sobra uma gota de rebeldia nas almas vendidas e, quando o comprador não está olhando, talvez inspirados pelas lembranças de velhos invernos, talvez simplesmente porque a arte é mais forte que a bolsa, os anjos caídos nos brindam com um grito triste, singular e tão belo quanto o canto do pássaro empalado no espinheiro- alvar.
O grito de Pat se chama What’s It All About e a faixa em destaque é Alfie.
Em tempos de recesso do Clareando, de leituras que pouco esclarecem (mas nem por isso deixam de dar um prazer imenso) e levam esse pobre monge que vos tecla cada vez mais para o fundo das florestas das terras dos bretões, eis que volto desconfortavelmente – por pouco tempo – ao século corrente e, em meio ao museu de grandes novidades, encontro naFórum um artigo, na verdade uma entrevista de Pedro Alexandre Sanches com um guri de Niterói chamado Gustavo Alonso, o qual, porque a vida não pode ser sempre perfeita, escolheu o triste ofício de historiador (por favor, auto ironia).
Como “não sou mais tão criança a ponto de saber e tudo” e, portanto, não tenho o benefício da inocência, o drama não cai bem na minha idade. Assim, não vou escrever que as melhores coisas são doloridas porque isso está longe de ser verdade, mas algumas delas doem mesmo. Como falar daquilo que aconteceu na virada de março para abril de 1964, em um certo país de Nuestra America, e que a minha geração - e a do Gustavo também – pagou parte da conta.
Acho que foi infinitamente menos dolorido para ele, mas posso estar enganado, do que para “os meus”, chegar às conclusões que essa entrevista apresenta. De quebra, uma aula de como os símbolos, ídolos ou que nomes quiserem dar são construídos de forma não inocente e como, por vezes, eles mesmo perdem o controle de suas histórias.
MPB e ditadura: O silêncio dos inocentes
Por Pedro Alexandre Sanches [07.07.2011 12h00]
Chico Buarque é o anti-Wilson Simonal. Essa tese não é o fio condutor do livro ensaístico Simonal – Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga, do historiador Gustavo Alonso. Mas é a conclusão mais polêmica e perturbadora a que chega o trabalho de um pesquisador que se afirma de esquerda, mas está disposto a contestar mitos e dogmas acalentados desde a ditadura cívico-militar brasileira, seja à direita ou à esquerda.
O livro é desdobramento da dissertação de mestrado que Gustavo apresentou em 2007 à Universidade Federal Fluminense (UFF). A demora de três anos da Record em editá-lo faz com que chegue simultaneamente à conclusão de sua tese de doutorado, sob o título Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. A linha seguida em ambos é análoga à do também historiador Paulo Cesar de Araújo, autor do livro Eu não sou cachorro, não (Record, 2002), que explicitava preconceitos classe escondidos atrás da habitual trincheira de guerra aberta entre a sigla MPB e grupos artísticos rejeitados por ela.
O recorte de Gustavo se estende à própria ditadura de 1964. Despreocupado em culpabilizar ou inocentar Simonal das acusações de deduragem que a partir de 1971 dizimaram uma carreira até então gloriosa, o historiador quer mostrar que Simonal era um apoiador da ditadura, sim, mas estava longe de ser o único. Invertendo o ponto de vista habitual, encaixa seu personagem à evidência de que o arbítrio existiu não devido à passividade e apatia da sociedade brasileira, mas porque a maioria dessa sociedade o apoiou, legitimou e aplaudiu.
Memórias como a de um Chico Buarque heroico, defensor de todos contra os militares, seriam uma construção (ou distorção) posterior, assim como a de um Wilson Simonal maquiavélico e solitário na defesa de um regime, contra todo um país de vítimas 100% inocentes. É onde Chico seria o anti-Simonal, embora isso nunca seja proferido.
Gustavo, niteroiense nascido por acidente na cidade paulista de Aparecida, durante uma viagem do pai engenheiro e da mãe nutricionista, desenvolve na entrevista abaixo a provocação, questionando o papel de resistência atribuído à peça teatral Roda Viva (1968), de Chico, ou traçando semelhanças entre a hoje hegemônica Tropicália e o movimento da pilantragem, proposto por Simonal e interrompido com sua derrocada.
Quando um simples “nas próximas horas” dura duas semanas certamente é preciso repensar essa particular noção de tempo. Ele, o tempo, tão presente no meu ofício de historiador não tem sido clemente nessas últimas semanas e dá sempre a impressão de ter enlouquecido. Claro, esse é apenas um ponto de vista, provavelmente o mais impreciso deles.
O fato é que a falta de cuidado com um espaço que sempre me trouxe tanto prazer vem incomodando cada vez mais e os assuntos, livros, filmes não assistidos e todos os demais “pitacos” acabam represados no cérebro causando insuportável pressão.
Isso tudo, aliado a necessidade de produzir e sobretudo publicar de forma acadêmica e não diletante, acaba por inviabilizar – por enquanto – a existência do Clareando Idéias após três anos e meio. Se alguém lamentar, não lamentará mais do que eu, estejam certos.
Nesse tempo todo estreitei laços e criei outros com gente muito mais interessante do que esse sempre aprendiz de blogueiro. Alunos que se tornaram amigos, amigos que se tornaram ainda mais amigos, isso dá a medida da generosidade de quem dividiu comigo impressões musicais, cinéfilas e literárias. Algumas vezes o Marcão Bernardi tentou falar sobre esportes nos comentários, mas isso como sabem bem aqueles que o conhecem, é uma das poucas coisas das quais ele não tem a tirada mais inteligente.
Como consolo para a falta que a companhia de vocês seis fará (não, não esqueci a Mônica, informada em primeira mão dessa decisão), devo dizer que esse monge medieval vai recuar ainda mais no tempo, em busca da sombra que há tempos freqüenta meus dias e noites, a saber, o bretão Artur.
Artur, estou plenamente convencido, é a mais fantástica invenção daquelas estranhas ilhas no trabalho de forjar um mito nacional, e dessa forma, garantir a unidade de tribos antes separadas e, no mais das vezes, envolvidas em conflitos fratricidas. Compilações, poemas, autores obscuros e seus comentadores ajudarão, assim espero, a clarear minhas idéias (opa!), rumo à tentativa de provar como o cinema recria e acrescenta no mito, os valores de da época em que o filme é produzido e, ao mesmo tempo, como a força do mito contamina (influencia) o imaginário de épocas tão díspares. Deu para entender? Pois é, eu também estou tentando.
O trabalho intelectual, no mais das vezes, é solitário e parecido com aquilo que eu imagino que seja o trabalho de uma gestação, com muito mais introspecção e silêncios. Conciliar isso com as aulas que também dão muito prazer e os recibos da conta da luz que não chegou é das muitas tarefas a que se propõem os monges que se deslocam pelo tempo.
Guilherme de Baskerville, naquele livro de Umberto Eco, numas das passagens mais delicadas, mas por isso mesmo terríveis, rememora e recria os anos de reclusão e silêncio quando do reencontro com Ubertino de Casale. Eu já espero, sem ânsia, pelo reencontro. Com esse espaço. Com vocês.
Ah, o twitter também deixará de ser alimentado, mas eventualmente será lido. As mensagens diretas (DM na língua bárbara) continuam sendo um canal razoável de comunicação.
Como previsto, está ficando difícil alimentar o Clareando e os seis intrépidos seguidores (sem esquecer a Mônica, claro) com as pobres impressões da não menos pobre alma que vos tecla.
Os assuntos são muitos; o tempo demasiado escasso. Nas próximas horas, retomamos “a conversa”.
“Cada filme que eu não vi (no cinema) é um espinho cravado no meu flanco (Morrissey já escreveu um tratado sobre isso “The boy with the thorn in his side”). Vê-los em casa é como retirar o espinho, mas, depois de algum tempo de ferimento, fica sempre a cicatriz”.
Coloquei o parágrafo acima entre aspas porque, apesar de retratar um sentimento genuinamente meu, foi manuscrito essa tarde, sob fortíssima inspiração de Manoel de Barros e do filme Só dez por cento é mentira, uma desbiografia do poeta, na visão mais que poética do Pedro Cezar, que, aliás, já havia brindado os espíritos sensíveis com Fabio Fabuloso.
Pois eis que, entre os fragmentos de poema e os depoimentos colhidos pelo diretor, o filme escorre pra dentro de nós e, acho que não preciso escrever, mas vou, deixa ao fim e ao cabo, um baita gosta de “me dá mais um pouquinho?”. (Agora, deixando o encantamento de lado, setenta e seis minutos é o tempo mais que perfeito para que uma obra como essa não desande e os críticos preguiçosamente escrevam que “o filme perdeu a hora de acabar”).
Vale contar outra vez, para quem não leu ou não ouviu, o início da empreitada. Manoel de Barros, dizem e ele confirma, é avesso a entrevista oral, pois, segundo ele mesmo, “palavra oral não dá rascunho”. Isso já demonstra um grande cuidado com as palavras e sua sacralidade.
Quando o Pedro Cezar já havia jogado a toalha e desistido do filme, a frase que vinha carregada da magia buscada no pantanal amoleceu o poeta: “deixa pra lá, Manoel. Era apenas um sonho”. Seres como Manoel são sensíveis aos sonhos, os dele mesmo e os dos outros e, afinal, não seria o autor de versos como “invenção é uma coisa que serve para alimentar o mundo” que iria matar os sonhos de um jovem diretor, não é?
O resto é grande demais para ser colocado em palavras, cabendo a esse blogueiro amador apenas a tarefa de colocar armadilhas aqui e ali para atrair incautos.
Por exemplo, mencionando Adriana Falcão e sua inspiração declarada para escrever sua prosa e dramaturgia após ler as poesias de Manoel. É puro Manoel, mas também pode ser Platão, quando Adriana conta que sempre fica imaginando um lugar, um quarto, um buraco, aonde as coisas desaparecidas vão reaparecendo e permanecem armazenadas. A fala misturada ao rosto francamente enfeitiçado pela poesia leva a nós, espectadores, a um estado de leveza, tal como se já houvéssemos percorrido todo o Samsara e, súbito, o Nirvana despontasse na próxima curva.
Ou ainda, entre as várias intervenções de Fausto Wolff, destacar aquela que ele diz que “o mundo precisa sempre de um Manoel de Barros para recuperar sua humanidade”. Cabe também citar Jaime Leibovitch, ator, diretor e autor de um ensaio sobre a poesia de Manoel de Barros, quando diz “aquele que procura a verdade em M.B sai apenas com a beleza”. Eu acho que a beleza já está além do que a maioria de nós merece.
“Toda de isca para os peixes. Se não engordar mais nada servirá para alimentar minha vingança. Ele desgraçou-me e fez-me perder meio milhão, riu-se de minhas perdas, troçou dos meus ganhos, zombou da minha nação, destroçou as minhas barganhas, arrefeceu-me os amigos, aqueceu-me inimigos. Qual o motivo? Por que sou um judeu. Será que um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afectos, paixões? Não é alimentado com a mesma comida ferido com as mesmas armas, sujeito às mesmas doenças, curado pelos mesmos meios, aquecido e arrefecido pelo Inverno e pelo Verão como um cristão? Se nos picarem, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E se nos fizerem mal não nos deveremos vingar? Se somos como vocês no resto, também somos parecidos nisso. Se um judeu fizer mal a um cristão, qual é a sua humildade? A vingança. Se um cristão fizer mal a um judeu, qual deveria ser sua tolerância segundo o exemplo cristão? Ora, a vingança. A vilania que me ensinam, eu a porei em prática, e irá ser difícil, mas superarei a instrução”.
O trecho acima é o monólogo de Shylock, em O Mercador de Veneza, e ele o diz quando questionado sobre o que irá fazer com a libra de carne que Antônio lhe deve e que será cortada do próprio corpo do desafortunado devedor caso o empréstimo de três mil ducados não seja resgatado.
A primeira vez que ouvi trechos disso não foi dito exatamente por um ator, mas por Mel Gibson naquela que deve ter sido sua primeira tentativa de dirigir um filme, “O Homem sem Face”. Foi uma avassaladora paixão à primeira vista pelo texto do Senhor William Shakespeare, apesar do australiano que dá ares de surfista a praticamente todos os personagens que interpreta.
Mas escrevi tudo isso apenas para retomar algo que ficou ribombando no espírito durante a madrugada e cujo barulho só aumentou após assistir novamente o Espaço Aberto Literatura dedicado aos mashups. Para quem tem a benção de não ter sido apresentado a esse neologismo cuja existência só pode ter sido concebida por Samael, com o auxílio de Adramelech ou ainda, por Belial, trata-se de uma tendência, do mercado dito literário, a acrescentar trechos e personagens em obras consideradas clássicas.
A primeira agressão desse tipo, confirmada pela Aninha Carolina, foi contra “Orgulho e Preconceito”, que se tornou, vejam vocês, uma história de Zumbis. Pois bem que aqui na tupiniquimlândia, Bernardo Guimarães, José de Alencar e, não se respeita mais nada mesmo, Machado de Assis foram, por assim dizer, vítimas de alguma licença poética.
Senhora, do cearense José de Alencar, é agora uma bruxa vingativa que conjura feitiços contra quem lhe ofendeu a honra. O Alienista, do bruxo do Cosme Velho, agora caça mutantes e o casmurro Bento Santiago está ás voltas com discos voadores. Leôncio, o senhor de Isaura, é, na verdade, um vampiro.
Aquilo que tinha atiçado ainda mais minha irritação durante a madrugada, a saber, os três estudantes secundaristas do Colégio Pedro II, do Rio, a comentar os mashups, acabou por ser um ponto de partida para reflexão.
Com a produção de bile em níveis recomendados e a boca adoçada por Nutella, pude prestar atenção nos comentários, aliás, bastante ponderados do Bruno, da Luísa e da Laís. Basicamente, a questão levantada por eles é: faz-se mesmo necessário tratar adolescentes sempre como débeis mentais e diluir a obra literária até que ela se torne uma bobagem destituída de sentido? Não é uma saída fácil, admitida por uma das editoras, bom que se diga, debitar essa apropriação com razões meramente mercadológicas a uma pretensa releitura “bem humorada”? Respondam se puderem e se quiserem.
A outra questão, derivada dessa, é: porque destruir um texto como o monólogo que abre o post e colocar na boca de Shylock palavras como (espero que ninguém leve a idéia a sério) mano, mermão e (os céus nos livrem!) tá ligado!a guisa de uma falsa aproximação que ninguém quer? Não lembro qual dos três jovens ouvidos na matéria disse que embora os adolescentes leiam mais atualmente, não significa que a leitura tem qualidade.
E me toco, numa crise nostálgica motivada pelo céu belamente cinzento e pela ausência (necessária) de pessoa muito querida, a pensar nos livros que a Dona Iara, mãe do Elias, colega de primário, me emprestava e que abriram as portas de todo o Julio Verne e de tantos outros clássicos (a baleia perseguida pelo Capitão Ahab subitamente volta a assombrar meus pensamentos), todos eles com linguagem adequada, sem significar a banalização da leitura.
Para Francisco Cavalcante Néri, ele mesmo um amante dos livros bem escritos.
PS 1: A reprodução do monólogo do “Mercador de Veneza” eu devo a Helena Barbas, cuja tradução está disponível aqui e está ligada à Companhia de Teatro Almada, de Portugal. Edição bilíngüe, dá vontade de comprar assim que a gente vê, tal o esmero. Isso justifica afectos, nessa grafia. Não mantive o original versificado para evitar aborrecimentos e aumento da bile na hora de editar o post. Scusa!
PS 2: Apesar de eu estar, agora, totalmente apaixonado por Luísa, Laís e Bruno, confesso que temo não conseguir me comunicar dentro de algum tempo com os mais jovens, os quais parecem não ter a capacidade de falar numa rotação apropriada aos cérebros desgastados que já miram o astrolábio para o “outono da existência” (certo, forcei um pouco).
Por que todo mundo nessa faixa etária fala aos “soquinhos” ou em ritmo alucinadamente rápido, como Jesse Eisenberg, em “A Rede Social”? Apenas para estourar cerebelos incautos? (Isso deve ser maldade e senilidade precoce misturadas em partes iguais nessa pobre alma que vos tecla, esqueçam). Rabugices, rabugices!
Lembro perfeitamente do ano em que Gwyneth Paltrow levou a estatueta de melhor atriz por “Shakespeare Apaixonado”, batendo Cate Blanchett (Elizabeth) e uma certa Fernanda Montenegro, que já havia submetido Berlim ao seu talento em “Central do Brasil”. Ao escolher Paltrow, a “Academia” reafirmou a sua posição “prêmio da indústria” e apostou em uma commodity, isto é premiou a atriz que poderia vir a ser em detrimento das que eram em essência. O tempo comprovou que, se é verdade que Gwyneth não se tornou atriz, os investidores não tem do que reclamar quanto à realização dos lucros.
Tudo isso prá comentar uma propaganda do Oscar 2011, melhor ator. Lá pelas tantas a narração dizia: “cinco grandes atores”. Vivemos uma crise semântica, na melhor das hipóteses; não quero comentar a alternativa a essa crise. James Franco, escusas antecipadas aos fãs, ainda tem como solitária piece de resistance, “Milk”. Jesse Eisenberg, caso ganhe, será a aposta “Paltrow”, 2011. Acho que ele está bem em “A Rede Social”, mas a indicação só corrobora a tremenda carência de interpretações capazes de fazer gelar ou ferver a medula das gentes.
Dos outros três em competição, sou fã declarado de Colin Firth, mas entregaria sem pestanejar o prêmio a Bardem pelo simples motivo de que faz trapézio sem rede (arrisca mais em suas escolhas) enquanto Firth atua quase sempre na assim chamada “zona de conforto”.
Mr. Bridges é adorável e, essa semana, vendo pela primeira vez na íntegra “O Silêncio do Lago”, lembrei também de suas limitações ao longo da carreira. Muita gente a-do-rou “Coração Louco”, mas é filme feito por encomenda, com ingredientes de festa de aniversário de criança, com casca pseudo-radical. Sim, aquela gente que habita a região entre o Rio Grande (norte do México) e os Grandes Lagos é especialista em fingir radicalismo para reafirmar valores que foram trazidos pelos primeiros peregrinos do Mayflower. Premiar Jeff por seu “Rooster” Cogburn é também uma homenagem a John Wayne e, nesses casos, tudo é possível. Ainda, “Irmãos Coen” não é marca a ser desprezada. Aguardemos, pois.
De resto, torcida por Christian Bale, no papel de pugilista aposentado e decadente em “O Vencedor”; querendo muito que “Biutiful” leve por Melhor Estrangeiro (apesar dos excessos costumeiros de Iñarritú) e apostando em “Alice” para o prêmio de Direção de Arte.
Mas, falando sério, não dá pra acreditar que interpretação seja o prato principal do Oscar, prêmio em que a torcida se comporta como aqueles que vão às touradas para ver o animal chifrar a figura com vestes de gosto muito além do duvidoso. O toureiro da vez a ser abatido atende pelo nome de Natalie Portman, com barulhenta e imensa torcida contra pelo único fato de despontar como favorita absoluta. Querem dar o prêmio para qual das indicadas? Quais os critérios utilizados? Enfim, não prêmio para o cérebro, mas para o fígado.
Para quem gosta de fotografia e da Pinacoteca do Estado, a exposição de Aleksandr Rodchenko é iguaria fina, num restaurante charmoso; o problema é a quantidade de alimento servida nessas ocasiões. A partir de um determinado instante, para continuar na metáfora gastronômica, o corpo não processa mais as informações de sabor, texturas e outras tantas que exalam do prato, ou, no caso, das obras expostas. Deve-se ir uma vez para experimentar o banquete pantagruélico e outra para escolher um ou dois pratos e, deliciado, explorar todas as nuances á disposição do gourmet.
SERVIÇO: “Rodchenko: Revolução na Fotografia”, na Pinacoteca do Estado, Praça da Luz. De 3ª a Domingo, das 10 ás 17h30.
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Não tem mesmo jeito. Alguns torcem o nariz, mas Win Wenders faz a diferença, num mundo que a cada dia exalta mais o senso comum ou o aparentemente rebuscado. “Pina” é “o filme” a ser visto esse ano, muito menos por ter sido realizado em 3D do que por nos devolver aquilo que Wenders tem de melhor, a saber, a capacidade de incitar a exploração dos nossos próprios sentidos e reflexões, por nos forçar a lançar um outro olhar, seja sobre o comum, seja sobre o extraordinário – no caso a vida e a obra (não se confundem?) de Pina Bausch.
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Na ilustríssima de hoje belo texto de Rodrigo Lacerda colocando-se no lugar do próprio avô, o jornalista e político Carlos Lacerda, num relato imaginário feito pelo próprio defunto a beira do sepultamento, entrecortado por trechos que muito bem poderiam ser um sonho ou premonição do velho cacique. Já ocupei esse espaço falando do meu interesse na faceta “crítico literário” de Rodrigo e da indiferença que sua obra de ficção sempre trouxe ao meu espírito. Oxalá “Política – A gente morria por ela e se matava por ela” marque a libertação do autor em relação aos rótulos e idiossincrasias perseguidas por sua geração e que, até o presente momento, redundaram em pouca coisa.
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Em um dos canais pagos especializados em filme (provavelmente TC Cult), será exibido, na madrugada de segunda, “Estranhos no Paraíso”, um Jim Jarmusch jovem e exalando frescor que nos permite relevar certos excessos. Engraçado, lembrando do filme veio à cabeça uma frase de Zadie Smith sobre Mark Zuckerberg e “A Rede Social”, cito não literalmente, mas a essência: paralisado pela visão daquilo que é vendido como o paraíso, o criador do facebook não se dá conta que está às portas do inferno. Parece, mas não é necessariamente certo, ser essa a situação dos personagens do filme de Jarmusch.
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Falando em Zadie Smith, fica a indicação algo tardia de seu ensaio na Piauí desse mês, refletindo sobre “A Rede Social” e as inquietações das gerações 1.0 e 2.0. Deu vontade de ler os romances de Zadie após de ler o ensaio.
Vi na madrugada de domingo e revi á tarde o “Almanaque” especial conduzido pela Elizabeth Pacheco com o músico João Luís Woerdenbag, conhecido por quase todos os mortais como “Lobão”, autor, em parceria com Cláudio Tognolli, de um balanço de seus cinqüenta e três anos de idade, “Cinqüenta Anos a Mil”.
Antes que alguém me acuse de antipatia, esclareço que Lobão foi um dos muitos ídolos e modelo de autodestruição para essa pobre alma que vos tecla e para muitos da minha geração nos turbulentos anos da adolescência ou que nome queiramos dar para aquele período em que as perguntas sem respostas se misturam a muitas angústias, ansiedades, a maioria das quais, felizmente, vira motivo de piada alguns anos depois.
Não cabe comentar as pinimbas com a Bossa Nova e, em particular, a agressividade verbal não justificada contra Edu Lobo. Mas, ainda nesse caso, descontados o histrionismo e a generalização, sempre problemática, muitas das críticas de Lobão cabem a perfeição aos vampiros e imitadores inconseqüentes da Bossa. Daí a colocar Roberto Menescal, Carlinhos Lyra e tantos outros no mesmo saco (sujo) vai uma distância grande.
Não, o que incomodou mesmo foi a incapacidade do músico de enxergar em meio a tanta bobagem produzida nos anos 80 trabalhos pesados e interessantes. Chamar para Cazuza, Julio Barroso e para si mesmo a única originalidade do rock e pop do período, soa a defesa de patota, cegueira motivada por inveja e uma dose descomunal de pretensão.
Goste-se ou não das escolhas e do resultado posterior, ninguém que viveu aquilo ignora que Brasília com o “Aborto Elétrico”, “Plebe Rude” e outros menos citados, frutos de coletivos que se formavam e se desfaziam de maneira fugaz, deram ao resto do país punk rock de primeira que veio ao encontro do que se fazia de mais interessante em São Paulo – não precisa falar de Clemente e os Inocentes, não é?
Goste-se ou não, muitas bandas que já pereceram por que entenderam que o tempo havia acabado, trouxeram um sopro renovador no bode da ditadura que começava a ser retirado da sala de estar. Estou escrevendo e me lembrando de Fellini e de Picassos Falsos que dialogavam bem com o que estava sendo feito no exterior.
Ou será que Lobão pretende que seja tomado como original o som que ele fez e faz? A mistura da levada de samba com rock convencional é suficiente para pleitear o título de “o original”? Acho que não, até porque teríamos que lembrar de Jorge Ben fazendo sua alquimia já nos sessenta.
O que incomoda quem sempre gostou de Lobão, repito, como é o caso desse que vos tecla, é perceber que João Luís não consegue mais controlar o alter ego. As máscaras do maldito, do polemista a todo custo, do pretenso iconoclasta foram fixadas de tal maneira que já não se pode mais ver o Lobo primevo e sim uma série de “replicados” com os problemas que as réplicas trazem.
Seria uma excelente piada não fosse o tom sério e de auto credulidade usado por Lobão para exigir concisão da Bossa Nova. Concisão? Isso vem mesmo de um sujeito verborrágico que dispara palavras na velocidade que uma metralhadora de última geração cospe balas?
Pronto, descobri. O que atemoriza a todos nós, seus fãs, é o medo que Lobão se transforme num sub Caetano.
Depois de muita resistência, confesso que acho o twitter uma ferramenta pra lá de interessante para uma série de coisas, mas, muitas vezes os tais cento e quarenta caracteres dão uma sensação de sufocamento indescritível.
Ontem escrevi (tuitei) sobre “O Lobisomem”, com Benício Del Toro, estréia badalada da TV por assinatura, que eu não vi nem em DVD, muito menos no cinema. Já passei da idade de pagar para estraçalharem meu sistema nervoso – central e periférico – com as alterações de trilha sonora e a iluminação, tão características. Confesso, todavia que, dos monstros clássicos do cinema de horror, o torturado homem-lobo sempre foi meu personagem favorito, a frente da criatura do Doutor Victor Frankestein e, bem a frente, do vampiro-empalador da Transilvânia. Por isso, com alguma relutância, assisti a última versão da história tantas vezes contada.
Tony Hopkins, nos últimos filmes, faz com que meu pêndulo emocional e cinéfilo oscile entre a impaciência e a indiferença. Há tempos, suas atuações dão sono e, escrevo com pesar, fujo sempre que possível de filmes com sua grife. Escrevi no twitter, “Sir Anthony Hopkins tornou-se canastrão e preguiçoso”. Isso pode parecer prepotente e injusto, mas é apenas o lamento de quem ainda guarda com carinho e admiração incontida a contenção do mordomo de “Vestígios do Dia”, no qual ele e Emma Thompson mostram direitinho a diferença entre “play” e “acting”.
Num filme tão despretensioso quanto badalado, “Em Algum Lugar do Passado”, o personagem de Christopher Plummer, ensina sua pupila a atuar: “excesso controlado”, diz para a impetuosa Elise McKenna. Esse conselho, acredita essa pobre alma que vos tecla, é a chave para evitar a armadilha que ceifa os grandes atores, a saber, repetição das mesmas expressões preguiçosas e a impostação fora de lugar.
O John Talbot vivido (?) por Sir Anthony virou a fórmula pelo avesso. Não transmite crueldade, nem qualquer outra emoção que possa decifrar uma alma torturada ou seduzida por uma maldição. Os outros personagens padecem da mesma superficialidade, menos Emily Blunt e Geraldine Chaplin que escapam da pasmaceira do mundo essencialmente masculino encenado pelo diretor. Suas personagens dão dimensões humanas e emprestam sofrimento legítimo em meio a interpretações caricaturais. Não há o que escrever sobre Benício, exceto que Lon Chaney Jr. o Wolf Manoriginal deve ter se revirado na tumba... de tanto rir.
Caso alguém queira ilustrar a fala do personagem de Plummer com a atuação de um ator de carne e osso, pode assistir ao filme “O Mercador de Veneza”, que me recorde, a última versão para o cinema. O personagem mais interessante da trama, Shylock, ganha vida através de um certo ator ítalo-americano, um tal de Al Pacino.
Depois de vê-lo no papel do judeu que cobra a terrível dívida de seu desafeto, uma imagem e uma frase ecoam sem parar: um sujeito escalando rapidamente o Everest, despencando de lá de cima e chegando ao chão intacto; é o que Pacino faz quando diz a frase “It’s mine!”, como um urro de animal mil vezes ferido, para abaixando o tom, dizê-la novamente como um pecador que roga misericórdia dos céus. E, sempre digo, faz-se necessário respeitar um sujeito que consegue dizer uma simples frase com tantas variações quantas lhe forem pedidas. O Shylock de Pacino carrega nas entranhas milênios de humilhações e o espectador sai do cinema convencido disso.
Por brincadeira, nem sempre entendida, quando um sujeito como Hopkins ou De Niro, para ficar em dois, nos servem “mais do mesmo”, refiro-me a eles como aquele cara que imita o (e escrevo o nome do ator). Por que, no fundo, esse tipo de interpretação revela essa triste verdade, o ator como pastiche dele mesmo.
Os dois ítalo americanos citados nesse texto ainda tem cartas na manga; acho que não podemos esperar mais nenhum regalo do galês naturalizado norte americano.
Para os que não conhecem ou querem matar saudades do grande ator que Tony Hopkins foi, além de “Vestígios do Dia”, o Clareando recomenda, sem sustos, “Nunca te vi, sempre te amei” (84 Charing Cross Road). Revisto no mesmo dia que “O Lobisomem”, “O Leão no Inverno” apresenta o jovem Tony no papel de Ricardo I da Inglaterra. Mas esse filme é de Peter O’Toole e ninguém tasca. Vejam.
Não, eu não gosto da “franquia” Hannibal. Acho o melhor exemplo de overacting. Mas isso é para outro post.
Já escrevi várias vezes sobre Diários de Bicicleta, de David Byrne. Seja fazendo uma elegia ao perfeito livro para ler no ônibus, seja como indicação de leitura para o ano que se inicia, seja ainda ilustrando com as palavras do eterno “Talking Head” memórias das cidades onde já estive e que foram desbravadas por Byrne do alto de duas rodas.
Eis que revisitando as páginas em que Byrne fala sobre a mais cool de todas as cidades do nosso sistema planetário (Londres, pois não?) topo com o trecho abaixo e me pergunto como não reparei nisso antes uma vez que o bardo de Baltimore, nessas linhas, fala de muitas das inquietações que perseguiram os franciscanos do mosteiro imaginado por Eco e continuam ocupando parte dos dias e noites, para não falar nas salas de aulas freqüentadas por esse pobre monge medieval, desgarrado no tempo e no espaço, que ora vos tecla.
Lá pelas tantas (p. 222) DB sai com essa (debaixo do título, O que foi ainda é):
“O passado não é um prólogo do presente; o passado é o presente – um pouco adaptado, transformado, distorcido e com um enfoque diferente. Ele é uma versão estruturalmente similar, embora bastante distinto do presente. De certo modo, o tempo – a história – pode, ao menos em nossas mentes, fluir em qualquer direção, já que no fundo, tratando-se das estruturas, nada de fato mudou. Nós agimos como se a humanidade estivesse seguindo em linha reta pelo tempo, progredindo, avançando, mas podemos estar andando em círculos.
O que chamamos de história poderia ser encarado como um registro da maneira como organismos sociais básicos se distorceram e se transformaram. Eles apenas mudam de forma, mas os padrões e comportamentos fundamentais continuam sempre lá, sob a superfície – assim como nos organismos biológicos. Certos traços, órgãos, membros e apêndices se desenvolvem enquanto outros se contraem até ficarem atrofiados para acomodar certas necessidades e contingências evolutivas, mas elas poderiam muito bem seguir outro caminho caso essas demandas e conjunturas fossem outras. Talvez a história se comporte da mesma forma – os nomes e números mudam, mas os padrões fundamentais continuam os mesmos”.
Para quem gosta dessa discussão, não é de arrepiar?
Esses dois parágrafos de Mr. Byrne poderiam servir tranquilamente de introdução a questões sobre a Teoria da Evolução (ou A Origem das Espécies). Poderia servir ainda como introdução a um texto filosófico enfocando Aristóteles e dois dos conceitos de Metafísica, a substância (essência) e a aparência (forma).
Por fim, mas não finalmente, poderia servir como um a bela reflexão sobre tempo linear e tempo cíclico.
Trabalhar em sala de aula com a mesma maestria e clareza com que Byrne escreveu esses dois parágrafos deve ser o sonho de todo sujeito que se meteu a revelar ou pelo explicar alguns dos muitos segredos da Velha Senhora, companheira de caminhada de todos nós, a História.
No post abaixo, vocês lêem o belo e instigante texto do professor José de Souza Martins sobre as políticas de imigração e concessão de visto do “Grande Irmão do Norte”.
Se vocês seis (+) deixarem seus comentários sobre os dois textos, acho que podemos “empinar” uma discussão prá lá de interessante na semana que se inicia.
Antes de se tornar o diretor “Aeroporto de Liverpool” (above us, only sky, como o Arlen gosta sempre de lembrar), o senhor Clint Eastwood era um dos ícones, acho mesmo que o maior, de um tipo de western, subnominado “spaghetti”.
Três Homens em Conflito, cujo título em inglês era “The Good, The Bad and The Ugly”, do original italiano “il Buonno, il Brutto, il Cattivo” é, certamente, um dos maiores clássicos do gênero. Pois bem, eis que o grande filme de Sergio Leone serve agora como conceito classificativo de imigração para o consulado americano.
Leiam abaixo o artigo do professor José de Souza Martins, para o Caderno Aliás, do Jornal dos Mesquita. Os grifos, com pitadas de indignação, são de minha responsabilidade. É o tipo de texto que deveria ter uma sobrevida muito maior que o inexorável destino dos periódicos. Aliás, não é esse o papel da blogosfera? Empurrar para a frente a discussão que cairia na vala comum dos fatos banais?
Você é bom, mau ou feio?
Em 2005, o consulado americano em São Paulo adotou uma classificação moral dos postulantes a vistos temporários de trabalho nos EUA: bons, maus e feios. Essa informação está em documentos revelados pelo WikiLeaks e divulgados pela Folha de S. Paulo. "Bons" seriam os jovens de classe média, com bom nível de escolaridade, que vão para trabalhar em hotéis, cassinos, estações de esqui, para ganhar dinheiro e aprimorar o conhecimento da língua inglesa. Não raro, gente que aqui se recusaria a varrer a calçada da própria casa e lá se dispõe até mesmo a lavar privada.
"Maus" seriam os que maliciosamente já tem conexões nos EUA, parentes ou amigos que lá vivem ilegalmente, que para lá vão para se tornarem novos ilegais, vão para ficar. Não diz o cônsul, que vão para trabalhar em serviços que os próprios americanos recusam.
Tampouco diz o cônsul que inventou a classificação, com base no filme Três Homens em Conflito, que a ilegalidade laboral não é propriamente nociva à economia e à sociedade americanas: faz parte de um sistema de rebaixamento e barateamento da força de trabalho em certas ocupações. Sem os ilegais, muitas famílias ficariam sem a empregada doméstica barata.
"Feios" são os descuidados, pobres e desesperados. No fundo, o rejeito humano criado pelos desenraizamentos decorrentes da globalização da economia, pela extinção de empregos e profissões no país nativo, pelo desenvolvimento econômico socialmente excludente, pela morte social precoce dos que ficam sem alternativa de inserção na economia moderna. São os órfãos de um desenvolvimento econômico regulado pelo ritmo e pelas demandas dos países que polarizam a economia globalizada, que, continuamente, tornam obsoletos amplos setores da economia dos países de ritmo mais lento de desenvolvimento. Basta fazer uma excursão pela região metropolitana de São Paulo, sobretudo ao longo das ferrovias, para ver uma sucessão de ruínas de antigas indústrias, que há 60 anos fervilhavam de trabalhadores, no que era praticamente um regime de pleno emprego. Tudo vazio e em silêncio.
A classificação adotada pelo consulado é debochada e cruel. É verdade que se trata de uma classificação para uso interno, que não chega ao conhecimento de suas vítimas. Revela o parâmetro oculto de julgamento de pessoas avaliadas face a face no guichê de obtenção de vistos, que dali saem convencidas de que a rejeição assinala um defeito que é seu e não da sociedade para a qual pretendem ir.
Em duas ocasiões tive a oportunidade de presenciar o modo como, no consulado americano, é feita a triagem de quem pode ou não pode viajar para aquele país, até mesmo como simples turistas. Numa certa época, no preenchimento do formulário de pedido de visto, o interessado devia declarar cor e confissão política. Qualquer um sabia que os funcionários consulares queriam saber se o candidato à viagem era negro e/ou comunista.
Uma família de mulatos claros, de classe média, bem vestidos, pai, mãe e dois filhos adolescentes, empacou diante da pergunta da cor. Um dos adolescentes perguntou ao pai "de que cor nós somos, papai?". Como ainda não havia, no Brasil, a discriminação instituída pelas cotas raciais, aquela família não recebera o benefício do carimbo na testa para definição de sua raça. O pai vacilou, pensou um pouco e sentenciou: "Morenos! Escreve aí que você é moreno". Não sei se conseguiram o visto para viajar a um país em que quem escapa de branco é negro. Quando chegou a vez de uma jovem bem-vestida, mulata, o cônsul, negro retinto, fez-lhe várias perguntas sobre seu trabalho. Era artista, explicou ela. Rindo ostensivamente, disse-lhe ele, em inglês, que não ia dar-lhe o visto. E despachou-a.
Mas os brancos também têm a sua cota. Um pequeno grupo de moças que, pela conversa, eram amigas e trabalhavam na mesma empresa, havia feito severa economia durante um ano inteiro para comprar a passagem e visitar a Disney World. Ao saber qual era seu emprego e salário, recusou-lhes o cônsul o visto solicitado apenas para ir ver o Mickey Mouse, o Pato Donald e o Pateta. Até hoje não entendi por que a Disney World, montada na Flórida especificamente para atrair os latino-americanos que gostam de ouvir pato, rato e cachorro falarem inglês, não proclama a independência, não cria um Estado livre associado, como Porto Rico, e não estabelece o próprio sistema consular, emitindo seus próprios vistos. Sem contar que o sistema americano, pelo que se vê, é completamente falho: os terroristas envolvidos no ataque do 11 de Setembro, pela nomenclatura adotada em São Paulo, seriam classificados como "bons". Obtiveram facilmente o visto para ingressar nos Estados Unidos e fazer o que fizeram.
O problema não é exclusivamente americano. Outros países adotam cautelas mais ou menos cômicas para selecionar desejáveis e indesejáveis. Vivem uma contradição, pois são países que dependem e muito do dinheiro dos turistas, caso da Espanha. E dependem, também, do trabalho barato e ilegal de bons, maus e feios.
JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO DA USP (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO).
Estado de S. Paulo, Caderno Aliás, 5 de fevereiro de 2011.
A Naomi tem suas “domingueiras”, o Clareando vez por outra apela para o “Da Janela” e derivados, mas, o fato é que são tantas coisas interessantes acontecendo e tão curto o tempo para comentá-las que a sensação de impotência é uma constante para quem escreve um blog amador.
Vamos tentar uma sessão na qual possamos comentar rapidamente os acontecimentos e ficamos no aguardo dos bravos seis (+) para acenderem o debate.
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Foram divulgadas as primeiras fotos da Kristen Stewart no set de filmagem de “On the Road” do Walter Salles.
Não vou comentar Miss Stewart (também será Joan Jett em The Runaways, dica do Roni Muraoka).A minha torcida é pelo Walter que, após escalar o seu “Everest” – de 1998, com “Central do Brasil” a 2001, “Abril Despedaçado” – colecionou acertos, por exemplo, Diários de Motocicleta, 2004 e equívocos como “Linha de Passe”, de 2008. No entremeio, um episódio de Paris, Je T’aime, e Dark Water.
Aguardemos, cruzando os dedos.
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Já escrevi aqui que alguns escritores, ou são lidos em “tenra idade”, ou jamais terão o alcance pretendido. Salinger e Kerouac são desse time.
Outros escritores, entretanto, conservam o frescor e, mais além, oferecem sempre uma novidade para quem tem “olhos de ler” e consegue escavar suas páginas em busca de outras possibilidades. Machado, claro, e a atual mania (ia escrever obsessão) do Clareando, o senhor Julio Cortazar são dois dos muitos exemplos. Seja nas entrevistas, nas críticas literárias sobre cinema e música, mas, com mais ênfase nos contos, sempre existe uma porta fechada a ser explorada nas obras do portenho.
De um dos livros menos conhecido “Alguém que Anda por Aí”, dois dos contos – “Apocalipse em Solentiname” e “Segunda Vez” – eram verdadeiros espinhos nos flancos da junta militar comandada pelo General Videla e, como tal, foram proibidos na Argentina.
Vale a vista.
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Programação fim de noite, no Discovery Travel & Living, Comidas Exóticas do Reino Unido e Escócia. Meu fígado embrulhou – juro! – ao lembrar do cheiro da Lancashire Pie exibida no programa. Outros sentidos, no entanto, despertaram com a sessão de queijos e embutidos da Harrod’s. Fish & Chips nos restaurantes populares é pesadíssimo, mas muito bom se o “fish” for bacalhau fresco. Esses canais, digamos, periféricos da grade, acabam salvando o dia numa safra de filmes fracos.
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Falando em filmes fracos, acho que o Clareando terá mea culpa quanto ao balanço cinematográfico de 2010. Acho que faltou ânimo para sair de casa e, por conta disso, perdemos filmes bem tradicionais, mas acho que por isso mesmo, bom cinema.
Vimos em DVD A Jovem Rainha Victória, do qual destaco a excelente interpretação de Paul Bettany e a beleza serena de Emily Blunt que vai, a cada filme, tornando-se atriz. Ponto negativo, a “licença poética” do atentado que fere o Príncipe Albert. Apesar de seis tentativas contra a vida da Rainha Victória, Albert nunca foi ferido na situação retratada pelo filme. Pena que, mesmo produções esmeradas, apelem para esse tipo de, para ser elegante, concessão.
Não entra numa seleção dos “cem mais”, mas é boa diversão para espíritos cansados da miscelânea pseudo pós moderna de sempre.
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Fim de semana promissor na Freguesia. Estréias de O Vencedor, Lixo Extraordinário e Cisne Negro. Em Pré estréia, o muito aguardado O Discurso do Rei. Aproveitemos, pois.
Nas férias, em meio a tanta conversa boa, falávamos, o cunhado Zé Ferreira e eu, do show de Caetano no réveillon de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Polemices à parte, o que chamou nossa atenção numa comparação entre o filho de Dona Canô e um outro seu contemporâneo, o ex ministro Gilberto Gil, foi a maneira como cada um dos artistas vem encarando o processo de envelhecimento. Concordamos que Gil, cada vez mais, faz o papel do “velho sábio” da tribo. Bem, não é preciso escrever sobre o papel de Caetano... “tá na cara, tá na capa das revistas”, como certamente diria o quase cinqüentão Humberto Gessinger.
Abaixo o Clareando reproduz do Portal Terra (Magazine), texto do Vitor Hugo Soares (dica do @Bob_Fernandes) dando conta de matéria a ser publicada na edição de amanhã, no A Tarde. Destaco no texto algumas reflexões da maturidade, não necessariamente apenas do Gil, mas, também, do periodista. Impossível não pensar em Cícero (o romano do século I a.C.).
SIMONE DE BEAUVOIR E GIL: A ARTE DE ENVELHECER
Vitor Hugo Soares De Salvador (BA)
Há alguns anos recebi de presente de aniversário o livro "A Velhice", de Simone de Beauvoir, mais importante e referencial ensaio contemporâneo que conheço sobre as condições de vida dos idosos. O regalo - como dizem os portenhos - veio de uma querida irmã jornalista - fã de carteirinha da escritora francesa, mas preocupada, também, com o avançar da idade do mano. A obra, publicada em 1970, segue mais atual do que nunca, principalmente no País de pouco cuidado - para não dizer desprezo escancarado - com os seus velhos.
Mas o jornalístico e factual nesse "nariz de cera" é a oportunidade de dizer que desde então não lembro de ter lido mais nada tão interessante e revelador sobre o envelhecer, que as reflexões do artista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Brasil, esta semana em Salvador.
Estão na entrevista concedida pelo cantor e compositor de 68 anos à jovem repórter Emanuella Sombra, publicada como matéria de capa de "Muito", a revista da edição dominical do jornal A Tarde.
Não recordo igualmente de ter lido nada melhor nos jornais e revistas nacionais nesses últimos dias. Sei que afirmativas como essas são perigosas e incomodam muita gente do meio. Mexem com vaidades e ciumeiras tolas do cada dia mais estranho e egocêntrico modo de pensar e fazer jornalismo, ultimamente.
Devo acrescentar, a bem da verdade e da qualidade da informação, nestas linhas, que a entrevista do ex-ministro da Cultura do Brasil não é mais um daqueles tratados insuportáveis sobre velhice, cheios de obviedades e lições hipócritas e "politicamente corretas" de como vencer achaques e limitações.
Gil faz um balanço quase completo da carreira. Fala da vida, da juventude, dos atritos durante sua atuação no ministério do governo Lula (a polêmica demissão do ator Antonio Grassi, que acaba de voltar com Ana de Hollanda no governo Dilma, por exemplo). Conversa livre e abertamente, também, sobre amores passados e presentes, da mãe Claudina (a "negra baiana cem por cento" da maravilhosa canção na volta do exílio), da relação com Flora e Sandra (Drão) - mulheres para as quais compôs duas de suas músicas mais belas e expressivas -, dos filhos, netos e amigos. E, obviamente, do show do CD "Fé na Festa", que ele apresenta neste domingo, 30, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.
Já se vê por esta "palinha" que a conversa do autor de "Parabolicamará" com a repórter baiana não é coisa de velho saudosista - como alguns apressadamente podem pensar - maldosamente (ou não) - mesmo que a saudade atravesse as palavras do artista de vez em quando, mas quase sempre daquele jeito bom de que falava o genial sanfoneiro e cantor pernambucano, Luiz Gonzaga, em seu baião antológico.
Mas o forte e eloquente da entrevista é mesmo o jeito original e marcante de Gilberto Gil encarar a velhice, na atual etapa de sua vida e de seu trabalho. Aproximando-se dos 70, o artista não esconde nem evita falar sobre as limitações dos anos nas costas, mas ensina com doçura e realismo como essas limitações estão sendo transformadas por ele numa nova juventude.
Ah! Antes que esqueça por uma traição da memória: as fotos, da capa com o título "Tempo Rei", e das páginas internas são assinadas por Fernando Vivas (de tantas jornadas ao lado de Bob Fernandes e Ricardo Noblat, pela Bahia e país afora, às vezes também deste que vos escreve, no tempo da sucursal da Veja). Imagens que impactam, encantam, informam e fazem pensar nessa matéria quase completa em termos de bom jornalismo.
Gil com a palavra, sobre as limitações do envelhecer e seu jeito de encarar o passar do tempo:
"Muda o sentido de atenção, de cuidado. O desempenho físico é outro, as tarefas, os afazeres são afetados. E isso também afeta o desempenho psíquico. A memória é uma coisa que é afetada drasticamente, ela começa a ter menos resposta do que antes. Envelhecer implica uma outra maneira de viver, uma outra arte de viver, novas autorresponsabilidades. Você passa a ter que responder a si próprio de maneira diferente, a dizer sim de maneira diferente, a dizer não mais severo, com mais intensidade, mais frequência. Passa a aceitar o sentimento de renúncia com mais resignação".
Um pouco mais de um dos motores mais vibrantes da revolucionária Tropicália na entrevista a Muito, quando a repórter pede que ele explique melhor: "Renuncia a muita coisa que você não pode fazer mais, como subir uma escada, que era um ato inconsciente e irresponsável. Hoje em dia envolve todo um desempenho e um empenho, um cuidado ao subir ou descer uma escada que me obriga a renunciar a tudo aquilo, à espontaneidade, ao desleixo, a uma impetuosidade". Subir em um trio elétrico no Carnaval de Salvador, para passar horas como no passado, também é algo impensável atualmente, confessa Gil.
Tem mais, muito mais na entrevista para ler e guardar. Como o livro que Simone de Beauvoir escreveu nos anos 70 para rasgar o véu de hipocrisia e "quebrar a conspiração do silêncio" em relação à velhice, assunto que aparece para os homens e para a sociedade como uma espécie de "segredo vergonhoso".